REVÓLVER NA MÃO DO MACACO


Sobre os Reis da Boca do Lixo

DaJonia

            Não pude deixar de refletir sobre o assunto. A caracterização do bandido como "rei" de algo é resultado dos aspectos materiais  onde se desenrola nossa parca existência. São Paulo tinha seus "reis",  o Rio os seus "malandros" e ambos freqüentaram o imaginário de grandes intelectuais e artistas. Figuras parias, lumpens na linguagem da esquerda ortodoxa, se mostravam como sujeitos de transformação social e de enfrentamento à ordem estabelecida para aqueles com maior sensibilidade. Numa terra onde comunistas sofriam pela falta de um proletariado, o lumpen parecia cumprir o papel da classe transformadora. É bem verdade que, durante as revoluções, uma classe pode muito bem assumir aquele papel que previamente estava designado à outra. A burguesia, para se libertar dos séquitos  feudais que a atormentavam, teve que propagar a libertação universal dos homens para que pudesse os aprisionar sobre novo jugo. Os camponeses, sempre desprezados, perceberam isso e de grandes protagonistas das revoltas se tornaram a classe naturalmente reacionária. Discordo. A questão é que eles, mais que qualquer um, sabem que não existe diferença substancial entre corvéias e tributações territorial, de produção e de consumo. Mas enfim, como o camponês foi extinto -tanto pela esquerda como pela direita- não me alongarei mais sobre o assunto.

            A grande esperança de muitos é que os “reis” e “malandros” tivessem em algum momento algum estalo como o Bandido de Sganzerla. E por isso eram os depositários da esperança de um projeto de transformação. Projeto esse muito lírico... tão lírico que chega a beirar o cinismo. E é o que ocorreu. Atropelados pelas transformações materiais sofridas pelo próprio país -processo de industrialização, urbanização e aprofundamento das clivagens de classe- estas figuras parecem ter desaparecido. Permanecem na mentalidade de alguns cínicos, muitos dos quais famosos por expropriar a cultura alheia e a transformar em mais um bem a disposição na estante dos supermercados. Na verdade, a realidade joga a favor de Paulinho Perna Torta.

            João Antonio e Sganzerla tem trajetórias distintas. O primeiro sofre de uma ascensão social que o leva daqueles ambientes descritos em seus contos ao conforto material das rodinhas intelectuais. Sganzerla, por outro lado, saiu do ambiente confortável e foi em busca da boca, já com a idéia lírica do bandido como agente transformador em substituição a clássica classe operária que, no momento, encontrava-se retraída devido a repressão. Ou mesmo pela qual ele poderia nutrir grande desprezo mesmo... São os locais de classe...

            Pode-se pensar os dois personagens como auto biográficos: um, ascende fazendo aquilo que pode fazer (trabalhar, roubar), se esforça, para ao fim o mundo não significar nada - lembro de Carlos de “São Paulo S.A.” de Luis Sérgio Person. O outro, vive normalmente e sofre um estalo mágico - a típica trajetória pequeno burguesa.  Pensando melhor, baseado na luta de classes no Brasile dos 60 aos 90: João Antonio é o operário que lutou e agora se vê frustrado porque, na verdade, toda aquela sua estratégia de luta, que levou a grandes melhorias materiais e perdas irreparáveis, só serviu para reafirmar o que ele sempre foi: um nada. O Bandido da Luz vermelha é o pequeno burguês que desde seu conforto sofre o estalo mágico que o leva a tomada de consciência e a uma radicalização sem nenhum conteúdo, que se limita a forma. João Antonio ficou louco, Sganzerla virou figura, "referência" sobre o lugar que visitou apenas como turista.  Tanto o Luz Vermelha, como Paulinho, como João Antonio, como Sganzerla são reflexos diretos dos limites de atuação política em sua época.

 



Escrito por REVÓLVER NA MÃO DO MACACO às 00h23
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