REVÓLVER NA MÃO DO MACACO


Um filme e um conto

[andre carrasco]

Nos últimos tempos tive a oportunidade de entrar em contato com duas obras, um filme e um livro, ou melhor, um conto de um livro, que tratavam, em linhas gerais, do mesmo lugar, da mesma época e quase das mesmas pessoas, de uma forma, simultaneamente, muito parecida e muito diferente.

O lugar: Brasil, São Paulo, a Boca do Lixo (pra quem não conhece, uma região do centro da cidade que fica mais ou menos entre a avenida São João e a Estação da Luz, entre a rua Aurora e a Alameda Nothmann.

A época: virada dos anos 60 e 70

As pessoas: uma multidão que foi sendo sistematicamente posta pra escanteio pelo modo como esse país, essa cidade e essa boca pretenderam se fazer grandes.

O filme é O Bandido da Luz Vermelha, de Rogério Sganzerla.

O conto, Um Conto da Boca do Lixo, de João Antônio.

O filme conta a história de Luz Vermelha, um bandido da velha guarda, ladrão de casas, assassino e estuprador. Nascido em uma favela no Tatuapé, e segundo ele mesmo, já com uma cadeira elétrica cativa. Parte para o crime de uma forma que nos parece quase natural. Fica famoso, perseguido pela polícia, ganha dinheiro, conquista mulheres. A imprensa se pergunta, de uma forma bastante previsível: um gênio ou um débil mental? Suas ações bem sucedidas, a incompetência da polícia em prendê-lo (inúmeras prisões são efetivadas, das quais consegue-se inclusive, algumas confissões), sua identificação com a região e seus delírios o transformam no Rei da Boca do Lixo.

Uma observação é importante. Apesar do nome, a história nada tem a ver com a vida do Bandido da Luz Vermelha real, João Acácio, que passou 30 anos na cadeia e morreu assassinado na sua cidade natal, Joinville, em Santa Catarina.

O conto trata de Paulinho Perna Torta. Desde pequeno sempre metido nas virações da boca. Primeiro como engraxate. Depois, acolhido pela alta malandragem, transforma-se em cafetão (por falar nisso, sabem da onde vem a expressão “mina”, pra falar de mulher? Da cafetinagem...mina é da onde sai a grana...)  e traficante. Seu objetivo era fazer dinheiro, levantar seu capital, de preferência, tomando dos outros. O capital acumulado, a polícia sob controle, a diversidade de seus negócios e a violência no trato com os rivais o transformam no Rei da Boca do Lixo.

No entanto, na vida de ambos há um momento de inflexão que acaba por apresentar, ao leitor e ao espectador, a diferença entre as perspectivas dos dois em relação ao modo como suas vidas vinham sendo conduzidas.

Para Paulinho Perna Torta, esse processo se constitui de um modo mais linear. Ele tem sua meta, faz o seu caminho até ela e lá do topo da boca, do seu apartamento na Avenida Rio Branco, se pergunta: E daí? Quem é o Paulinho Perna Torta? Tudo e todos que ele tem não o satisfazem mais...as coisas deixaram de fazer algum sentido. O crime vira a sua burocracia, sua casa vira seu ministério e suas bocas, pontos de bicho e de cafetinagem viram suas pequenas repartições.

Luz Vermelha, ao perceber esse processo de burocratização da sua vida (na verdade, a partir da sua vida ele percebe a burocratização da Vida), ele se vê num beco sem saída. Afinal, do que adianta ser o Rei da Boca e viver como o peão do ABC? Mandar em um monte de pé rapados, mas tendo que obedecer a polícia e os políticos? Do que vale o crime, se ele vira trabalho? E nesse momento o filme tem seu ponto culminante. Luz Vermelha, ao passar por uma praça, vê um anão, sobre um palanque, gritando: “O terceiro mundo explodiu! Quem estiver de sapato não sobra! Não pode sobrar!” . O anão é devidamente enquadrado pela polícia. Luz Vermelha vê aquilo, vê sua vida, vê a vida dos outros, tem um instante de lucidez, e conclui que “ já que a gente não pode fazer nada, a gente avacalha!”. Deixa de lado o crime como ferramenta de acumulação, parte para o terrorismo contra o Estado.

Se Paulinho Perna Torta queria todos os sapatos do mundo, de preferência tomando dos outros, Luz Vermelha passa a acreditar que quem tivesse um par de sapatos, no Brasil, não deveria sobrar. Soa até engraçado essa comparação, se pensarmos que os dois personagens foram reis do mesmo lugar, à mesma época. A diferença é que a história de Paulinho Perna Torta é quase real, e a de Luz Vermelha, quase ficção.

O modo como João Antônio descreve a cidade, as pessoas, as relações entre malandragem, polícia e política é digno de um Euclides da Cunha descrevendo a campanha de Canudos. Na verdade, talvez ele até vá além, pelo fato de ter vivido muito desse submundo (aí cabe, ao leitor desprevenido, uma pesquisa básica sobre a biografia dessa grande escritor e jornalista), o que em alguns momentos dá ao texto uma leve aparência de depoimento. E justamente esse envolvimento com o tema e os personagens talvez tenha impedido o autor de conseguir dar um passo adiante na sua crítica. Passo dado por Sganzerla, quando, entre outras coisas, ele mostra como o seu “rei” da Boca do Lixo consegue enxergar um pouco além das aparências que o rodeiam e parte para a destruição daquilo que sustentava seu reinado. 

O filme foi feito em preto e branco. Não creio que por opção do autor, e sim por ser o único jeito de se filmar, na época, na Boca do Lixo (que além de um antro da malandragem de São Paulo, era também um antro do cinema marginal da época, que reunia, além do Sganzerla, outros cineastas como José Mojica Marins, Carlos Reinchembach, Davd Cardoso e Cláudio Cunha). Há um contraste evidente entre as imagens panorâmicas, que mostram uma cidade “moderna”, com vários edifícios “modernos” marcando o horizonte (há uma cena na qual, da janela de seu apartamento, Luz Vermelha se detém e observa o edifício Andraus, na Av. São João, que sofreria um trágico incêndio nos anos 70), e as imagens ao nível da rua, do pedestre, que mostram todo o lixo da boca. Lixo representado tanto pela sujeira e precariedade do espaço quanto, e talvez principalmente, pelas relações entre as pessoas.

Após ler o conto e ver o filme, o encontro, ou duelo, improvável, entre Luz Vermelha e Paulinho Perna Torta passou a ser uma obsessão para mim. Assim como a idéia de um desafio de sinuca literário-cinematográfica-etílica entre João Antônio e Rogério Sganzerla. Gostaria de ser testemunha, mesmo sabendo que não possuo envergadura moral, malandragem suficiente e nem fígado, além de possuir sapatos demais, para ir além do Largo do Paissandú.

 

 

 

 



Escrito por REVÓLVER NA MÃO DO MACACO às 18h30
[   ] [ envie esta mensagem ]


[ ver mensagens anteriores ]


 
Histórico
  01/08/2009 a 31/08/2009
  01/07/2009 a 31/07/2009
  01/11/2008 a 30/11/2008
  01/10/2008 a 31/10/2008
  01/07/2008 a 31/07/2008
  01/04/2008 a 30/04/2008
  01/02/2008 a 29/02/2008
  01/01/2008 a 31/01/2008
  01/12/2007 a 31/12/2007
  01/11/2007 a 30/11/2007
  01/10/2007 a 31/10/2007
  01/09/2007 a 30/09/2007
  01/08/2007 a 31/08/2007
  01/07/2007 a 31/07/2007
  01/06/2007 a 30/06/2007
  01/05/2007 a 31/05/2007
  01/03/2007 a 31/03/2007
  01/02/2007 a 28/02/2007
  01/01/2007 a 31/01/2007
  01/12/2006 a 31/12/2006
  01/11/2006 a 30/11/2006


Votação
  Dê uma nota para meu blog