REVÓLVER NA MÃO DO MACACO


Quem se lembra do mendigo Natanael?

[DA JONIA]

Há muitos anos atrás, estava eu assistindo ao incrível “Domingo Legal”, apresentado pelo Sr. Augusto Liberato. Era mais uma tarde perdida de domingo porém mal sabia eu o que estava por vir...

Gugu tinha um quadro chamado “Sentindo na Pele”. É um quadro recorrente e acho que já o vi nos mais diversos canais e programas. A idéia é simples: fantasiado de alguma coisa (principalmente degradante), o apresentador se jogava na situação correspondente ao personagem que encarava. Neste domingo, Gugu e seu produtor estavam fantasiados de mendigos e comiam no Mesão (restaurante popular do centro com refeições a 1 real e dose de pinga a 50 centavos). Pela grande mesa estavam distribuídos todos aqueles tipos de mendigos que conhecemos: o velhinho, o barbudo loucão, o deficiente mental e aquele de camiseta velha de time. Com aquela sua particular voz de espanto, Gugu narrava a cena dos homens almoçando com um misto de admiração (Olha, eles usam talheres!) e pena (como pode gente viver assim?). Munidos de câmeras e microfones escondidos, Gugu e seu produtor sacaneavam a valer os presentes. Tentaram dialogo com um, o que logo se demonstrou impossível: balbuciava poucas palavras, provavelmente deficiente mental.

Qual não foi a surpresa quando um sujeito negro, com aparência saudável e uma camiseta gasta do Vasco, muito educadamente, pede licença, coloca seu saco de tralhas ao lado da mesa e começa a almoçar junto com o apresentador e seu funcionário?

Rapaz simpático e esperto, nota, talvez, a falta de “style” dos dois no ofício da mendigagem. Até mesmo estranha o fato de nunca ter visto os dois ali.

O papo começa. A admiração de Gugu por este morador de rua vai num crescente inacreditável: ele fala, gesticula, tem saudade da família e, se possível, voltaria para Recife, sua terra que abandonou há 14 anos em busca de uma vida mais digna no sul maravilha. Natanael é seu nome.

O ponto máximo, anunciado com grande suspense pelo apresentador, se da no momento em que o rapaz, ao ver que os dois comparsas engoliam a seco o macarrão com frango, oferece um pouco de sua Tubaína para eles.

“OLHAAAAAAA! Mesmo pobre, em necessidade, ele nos oferece a Tubaína!!!”

Parecia que Natanael não era apenas mais um desses restos humanos que habitam as ruas paulistas e por vezes dão a impressão de já fazerem parte da cenografia da cidade: havia algo a mais naquele rapaz. Mal sabia Natanael que seu gesto, talvez corriqueiro, talvez fruto de um dia de bom humor, iria transformar sua vida para sempre.

Gugu diz que ele e a produção ficaram muito tocados, não só com a pessoa e a história de Natanael, mas também com aquele gesto de solidariedade. Quando na praça de alimentação do Iguatemi poderia se ver um ato daquele? Esses ricos egoístas, tsc, tsc.

Enfim, cinicamente, Gugu pergunta: “Sabem que está aqui nos estúdios? NATANAEEEEEEEEEEEEEL!”

Liminha agita o auditório que, não sabendo diferenciar o acidente do Mamonas do nascimento do bebê de Carla Perez, reage freneticamente.

As luzes se acendem; as modelos bailando em cima da taças de champanhe param a dança e passam a aplaudir o convidado de honra; entre os participantes do programa é possível até ver uma lágrima. Como não se sensibilizar?

Natanael adentra o palco: cabelo cortado, prótese dentária e smoking. Gugu havia devolvido a dignidade aquele pobre homem que até semana passada sobrevivia de vasculhar lixeiras pela cidade. Você acha que para por ai? Natanael ganhou curso de computação, máquina de fazer pizza e tudo mais o que um subempregado necessita  para continuar reproduzindo sua existência material de forma porca, porém agora com um sentimento de dívida com aqueles que  o presentearam com a oportunidade de  nada.

Havia algo no olhar de Natanael. Era felicidade, mas tinha algo a mais. Não sei se as luzes, mulheres em trajes curtos, maquiagem ou mesmo a bizarra figura de Gugu causavam estranheza no olhar do ex mendigo. Algumas declarações, algumas homenagens e elogios a atitude de Gugu depois, é anunciado o grande momento: NATANAEL VAI VOLTAR PARA RECIFE! E mais surpresas o aguardam lá! “Não percam o próximo programa!”.  Desliguei a tv.



Escrito por REVÓLVER NA MÃO DO MACACO às 11h02
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Quem se lembra do mendigo Natanael? (II)

(CONTINUAÇÃO)

Não acreditava no que havia visto: seqüestraram um mendigo, limparam e colocaram dentes novos e ainda por cima mandaram ele de volta pra onde ele saiu. Algo não ia dar certo. Enfim, esperei o outro domingo.

A matéria começava onde havia parado: Natanael, como King Kong, era apresentado ao respeitável público. Daí passava-se as compras em um shopping, o tratamento de beleza e, lógico, as incríveis confusões e trapalhadas desse ex mendigo com a vida normal. Muito gracioso. Gugu se cagava de rir com a felicidade de Natanael ao constatar que havia água quente no chuveiro.

O resto do roteiro não foi surpreendente: o avião, Natanael com medo de avião, Natanael admirado com o avião, Natanael beijando o chão de Recife, Natanael entra na van, Natanael começa a se emocionar ao reconhecer a antiga cidade e, por fim, Natanael bate na casa de sua mãe que não via há 14 anos. Ai eu percebi que ia dar merda. Acho bem provável que outras pessoas  da produção também perceberam. Pois bem, a mãe do ex mendigo claramente havia percebido.

Não foi um reencontro emocionante, foi constrangido. Natanael parecia fora de si, enquanto  a feição da sua mãe denunciava o incomodo que aquela surpresa lha havia causado. Talvez, quem sabe, Natanael não fosse bem vindo em casa, mesmo depois de 14 anos...

Tive uma impressão esquisita de tudo isso mas deixei de lado e abandonei a história. Achei que nunca mais iria ouvir falar de Natanael. Mentira. No outro domingo, liguei novamente a TV em busca deste personagem que tanto me intrigava. E não é que o link ao vivo com o Recife trazia novidades de Natanael? Gugu, muito feliz de reencontrar seu amigo, pergunta em tom de retardado mental: “Fiquei sabendo que você arrumou uma namorada?” Gargalhadas de todos. Afinal, a vida sexual dos mendigos também é tabu.

Poderia aqui ficar falando sobre o que mais ocorreu neste dia, porém quero pular três semanas depois.

Passado este tempo, Natanael havia desaparecido da telinha. A televisão tem essa capacidade de criar as histórias mais maravilhosas, ou trágicas, mas sempre emocionantes, que duram o instante de uma ida ao banheiro.

Mas três semanas. Foi este o período que fiquei sem notícias de Natanael. E não foi pelo Gugu que tive novidades... Rodando os canais em alguma tarde inútil, me deparo com a Sonia Abrão e aquele programa de TV que comenta TV. A legenda, embaixo, dizia: “Mendigo Natanael preso por assalto a posto de gasolina”. Tive que me deter neste programa. Como assim? Preso? O relato completo era o seguinte: nestas três semanas, Natanael havia largado a noiva, arrumado um monte de brigas no bairro, aterrorizado sua mãe. Havia trocado, casa, máquina de fazer mini pizza, brinquedos do Gugu e tudo mais por farinha. A cocaína é o Diabo Ralado. Afundado em dívidas, Natanael e um comparsa tentaram a sorte num posto de gasolina e se deram mal. Poderia ter sido mais um crime como qualquer outro que preenchem as gigantescas estatísticas das grandes cidades brasileiras. Mas ai havia um agravante. Ele foi uma celebridade. Ele apareceu na TV. E o pior: Ele desperdiçou a chance que Gugu havia lhe dado. E isso, bom, isso é imperdoável. A sentença estava dada: “Isso que dá tentar ajudar as pessoas. Augusto Liberato havia se tornado vítima de sua própria bondade” comentava a apresentadora. Direto de sua casa, provavelmente em algum condomínio horrível que só o paulistano pode gostar, Gugu falava com uma voz melancólica pelo telefone. Escutava-se o áudio acompanhado de uma foto de arquivo com o apresentador cabisbaixo: “Em nenhum momento ele parecia ser mal, parecia ser um criminoso. Não sei o que aconteceu, estou muito triste e desapontado”. Era de se ter pena do apresentador, que, afinal, só queria ajudar.

Por mera sorte e curiosidade mórbida, pude acompanhar o que chamo de “A ascensão e queda de Natanael: do seqüestro a sua prisão”.

Depois dessa cagada, porém acompanhada de grandes índices de audiência, o quadro foi reformulado. Ao invés de saírem por ai seqüestrando pessoas, a produção do programa recebe cartas de famílias desesperadas que querem voltar pra casa. O atestado de boa índole passou a ser obrigatório, pois afinal, não poderia se correr risco de repetir tamanha cagada.

O quadro hoje se chama “Voltando para Casa”. Acho que passa ainda. 



Escrito por REVÓLVER NA MÃO DO MACACO às 11h01
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Mas nem o Padre Anchieta teria feito isso...

[da jonia]

Você atravessa o Estreito de Bering ou mesmo o Oceano Pacífico numa canoa de palha. Enfrenta a mega fauna, cordilheira dos Andes e ainda consegue viver em sociedade num dos ambientes mais hostis do mundo. É conquistado, catequizado e massacrado por europeus... E no final de tudo, será que valeu a pena sobreviver???

 

http://br.youtube.com/watch?v=ba9JLbDrpWI

 

As imagens dizem mais que as palavras...



Escrito por REVÓLVER NA MÃO DO MACACO às 11h36
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Chama o Caveirão!

[o emilio]

 

Continuo minha luta visceral contra o vício de ler merda. Confesso que vez ou outra fraquejo. Com a nítida impressão que estávamos lançando uma tendência ao armar nosso simpático macaquinho, acho hoje que a idéia pode não ter sido muito boa. É macaco armado pra todo lado, chama o caveirão!

Não me bastou o assassinato frio de Gabo por uma precoce colunista que se desencantou ao visitar sua luxuosa casa em Cartagena. Daí a odiar o teor machista de seu último livro e decretar a falência do Nobel foi um peido. Diz que a menina andou visitando este macaco e até nos parabenizou pelo esforço literário. Vagaba.

Pois bem, resolvi chafurdar em merdas mais profundas.

Na semana da morte real de Norman Mailer me deparo com texto da mesma categoria, escrito por jornalista da mesma categoria, tratando de destratar o cadáver fresco com a mesma categoria. Pensei em não perder tempo com isso após ler o Veríssimo ontem, que tratou de avacalhar o rapaz com uma categoria que não sonho alcançar. Porém, como a labuta nesse feriadão tem me causado um mau humor pouco além do normal, sobra raiva e trato de dar vazão.

Dizendo nunca ter gostado de escritor machão, o jovem trata de comparar Mailer com Hemingway, o mais detestável dos escritores-machão, que usaria touradas, caça, boxe, rum e fumaça, muita fumaça, para disfarçar o ranço de uma infância efeminada. Vale lembrar que a versão para a infância do barbudo manguaça também foi descoberta pelo rapazola em uma incursão à casa em que o escritor foi criado, nas imediações de Chicago (acho q o velho frias pagou muito a CVC pra mandar essa molecada fazer “turismo cultural”). Fotos revelam um Hemingway criado com chuquinhas e vestidos. A partir daí criou-se o monstro que a humanidade conheceu.

Sobre o horror a escritores machões prefiro não comentar, até porque poderia me dar alguma dor de cabeça tentar estabelecer conexões entre o estilo folha de jornalismo e as preferências estilísticas de seus imberbes articulistas. O que me parece meio óbvio é que o jornalismo praticado por Mailer, e por boa parte de seus contemporâneos não faz muito a cabeça dessa rapaziada. Imagino que tampouco Nelson Rodrigues, Mario Filho, João Antonio, Saldanha ou Antonio Maria. Jornalistas com uma prosa datada e um excesso de testosterona que causa inevitável confusão mental. O Manual de Redação da Folha me parece fonte muito mais inspiradora, oráculo do jornalismo equilibrado, independente, livre, apolítico, incolor, inodoro e assexuado. Com a bíblia em mãos quem precisa perder tempo com essa velharia de sebo, coisa de pai ler, cruzes.

O que comove é a perda de tempo da garotada com o assunto. Poderiam deixar de bater em cachorro morto e dar luz aos hqs, mangás, zines, literatura beatnik, grunge indie, ou sei lá que lixo andam comendo atualmente. E deixa o cara descansar.

 

 



Escrito por REVÓLVER NA MÃO DO MACACO às 20h33
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A Reforma constitucional de Chávez.

[da jonia]

Desde que os índios malucos começaram a ganhar as eleições nestas repúblicas de bananas chamadas América Latina, temos visto toda sorte de peripécias ditas “populistas” e retrógradas. Uns assaltam a propriedade alheia, outros cancelam dívidas e por assim caminha essa desgraça. Convido a todos que se sentem logrados a embarcar de volta a sua querida Europa. Lá estão precisando de pessoas, de preferência brancas e católicas, pra limpar a merda alheia.

A "nova" agora é a reforma constitucional de Hugo Chávez. Já repararam que dos 70 pontos (acho que é esse o número) a serem modificados, nossa imprensa só martela em três? O fim do limite a reeleição, aumento do mandato e o fim da autonomia do banco central venezuelano. Ponto. Esse é o máximo de informação que você terá caso queira interpretar estudantes armados, quebra-quebra nas ruas,passeatas por sim ou por não, sempre com aquela conotação racial típica da divisão social na Venezuela.

De tanto falarem e nada dizerem, fui eu atrás das medidas da reforma. No site da embaixada da Venezuela você pode abrir em PDF e comparar os artigos que serão modificados. Numa primeira leitura já achei três pontos muitíssimo mais importantes do que os três acima citado: reforma urbana, jornada de 6 horas diárias e a definição de 5 tipos diferentes de propriedade. A reforma urbana, além de apontar diretrizes, é baseada no direito das pessoas a cidade.  Além disso, reordena as esferas de poder e representação procurando sempre a tornar mais horizontais as relações de poder. A jornada de 6 horas me surpreendeu: bandeira mundial dos trabalhadores, acho que é o primeiro governo do mundo a adotá-la. A definição dos cinco tipos de propriedade busca deixar claro as diferenças entre o que é público, coletivo e privado. A propriedade privada, para sossego de alguns, mantêm sua natureza lockiana: propriedade privada é tudo aquilo que o individuo adquire mediante o trabalho.

De forma nenhuma estas medidas são revolucionárias. O mercado e a produção permanecem, pelo que vi, intactos; somente estão mais regulados sempre no sentido de buscar o bem estar e a felicidade geral. A racionalidade política (Estado Moderno, Democracia e representatividade) também não sofrem grandes alterações, apenas dando maior possibilidade de intervenção política das populações além do sufrágio.

São alguns paliativos interessantes na busca de transformar a existência no sistema produtor de mercadorias em algo um pouco mais suportável. É interessante olhar esta fonte, uma das poucas claras sobre o que pretende o governo Chávez. E não, não são delírios. São completamente pertinentes.

 



Escrito por REVÓLVER NA MÃO DO MACACO às 16h46
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BOLEI! (I)

[zeca ferreira]

 

 

Macaco truculento

 

A se julgar pela variedade de opiniões – muitas vezes incompatíveis – que suscitou, é possível atribuir ao fenômeno Tropa de Elite um insuspeito grau de complexidade. Mas após ver o filme (no cinema) e ler o (ótimo) texto do Carrasco aqui nesse espaço, não resisto a algumas provocações.

Desde a estréia, em um festival no Rio de Janeiro, o filme provoca polêmica não apenas pelo conteúdo, mas pelas reações que desperta no público. Ainda que não tenha sido essa a intenção de seus realizadores (eles dizem, eu acredito), o filme vem alimentando o desejo de sangue derramado nutrido por uma certa classe média cansada. Gritos de caveira! (símbolo da afável agremiação policial retratada no filme) são entoados nas sessões, urros (ou melhor, u-rrus!) de aprovação invadem as salas escuras a cada sessão de tortura liderada pelo capitão Nascimento (Wagner Moura, excelente). Luciano Huck, após ter seu rolex de ouro roubado em um sinal de trânsito de SP, clamou pelo capitão - talvez imaginando que um bom pontapé na boca do estômago e um saco plástico na cabeça do larápio diminuiriam um pouco a sua sensação de insegurança.

O colunista de um jornal carioca chamou o filme de fascista, provocando resposta imediata do próprio Moura. O ator, em um simpático artigo resposta, publicado em página inteira do mesmo jornal, isentava o filme e seus realizadores dessa culpa, mas dizia-se também assustado com o tipo de reação que a fita vinha provocando. Nascimento, dizia Moura, não era retratado no filme como um herói, mas como um personagem imperfeito, torto, o que podia ser comprovado na cena em que dava um corretivo na esposa (afinal de contas, não se bate em mulher. Já em traficante...). O ator também não concorda com os métodos pouco ortodoxos do policial, sobretudo no que diz respeito ao seu gosto sádico pela tortura de criminosos. Entretanto, ressalta, trata-se de um policial honesto, incorruptível.

 

Pausa para reflexão e uma rápida corrida ao dicionário. Está escrito lá:

 

Honesto: 1. Honrado, digno, decente: homem honesto; procedimento honesto. 2. Íntegro, probo, reto, decente: juiz honesto; governante honesto. 3. Conveniente, correto, adequado, decente: apareceu a digna velha, em trajes honestos. 4. Casto, puro, virtuoso: moça honesta.

 

É verdade que conto em casa com um velho Aurélio, comprado em sebo, e que conceitos como o de honestidade vem sendo alterados pelo tempo e uso, mas sinto certa dificuldade em aplicá-lo a um “homem da lei” que, para conseguir uma informação, costuma sufocar pessoas colocando sacos plásticos em suas cabeças (não sem antes aplicar uma série de bordoadas, deixando o saco todo borrado de sangue, para deleite da fotografia).

Assim, querendo ou não, as reações ao filme evidenciam uma sociedade purulenta, que aceita esse tipo de prática quando aplicada a determinado tipo de contraventor – ou alguém consegue imaginar o saco plástico na cabeça do Cacciola?).

E aí não sei o que preocupa mais: se a geração que gosta de espancar prostitutas e queimar índios, e vê no personagem do Wagner Moura uma espécie de herói nacional; ou se, numa perspectiva mais intelectualizada, a possibilidade de enxergar honestidade em um torturador contumaz.

 

Entendo a reação do Carrasco ao filme, até por ser também um pouco a minha: desesperança, pessimismo - tirada a conclusão de que tá tudo fodido , e indefinidamente fodido, com a perspectiva de piorar, sobra pouca coisa em que acreditar. Mas aí, até como um saudável exercício de sobrevivência, é preciso pensar no que não acreditar.



Escrito por REVÓLVER NA MÃO DO MACACO às 09h13
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BOLEI! (II)

(CONT.)

 

O filme Tropa de Elite é vendido como uma obra realista, um olhar “de dentro”, respaldado, principalmente, pela presença de um ex policial do BOPE como roteirista e consultor. Os eventos sinistros que circundaram sua realização também ajudaram a dar veracidade ao processo – primeiro o roubo das armas cenográficas (e umas tanta de verdade) durante a filmagem; depois o vazamento de uma cópia de trabalho do filme, abastecendo precocemente os camelôs de todo o país e tornando a fita um verdadeiro fenômeno popular.

 Do ponto de vista estilístico o filme usa e abusa de efeitos convencionalmente tidos por realistas: câmeras trepidantes, imagens pouco iluminadas, edição acelerada e até sangue que respinga na lente, além dos tiroteios ensurdecedores em dolby stereo digital, com cápsulas de balas caindo aos pés da nossa poltrona.

O Carrasco ta coberto de razão quando chama a atenção para o personagem do Mathias. É ele quem de fato importa, e é concentrando nele que podemos sair um pouco da verdade que o filme quer trazer e entramos nos artifícios que a ficção permite. Enquanto o Nascimento é, desde o começo, um caso perdido de patologia, temos no Mathias a esperança do raciocínio em lugar (ou pelo menos ao lado) do tirocínio. Apresentados os personagens, tem início o processo de transformação do jovem bem intencionado em uma azeitada máquina de matar e torturar pobre, do qual somos convidados a participar. Descontadas as intermináveis pisadas na bola que o cara dá, mandando pro matadouro o amigo de infância e candidato a psicopata júnior Neto, o filme nos convida todo o tempo a olhar pelos olhos do Mathias  - quando ele chuta a barriga do dedo-duro no meio da passeata pela paz na PUC é como se nós o fizéssemos (perdeu, playboy!).

Tributário de um certo cinema de ação onde a execução sumária (e explícita) é permitida desde que justificada por valores nobres – como a vingança -, Tropa de Elite acaba por servir de alimento aos (muitos) simpatizantes da velha máxima do delegado Sivuca, que dizia que “bandido bom é bandido morto”.

Aproveito aqui para lembrar de outro exemplar recente da nossa cinematografia (e de DNA bastante semelhante): em Cidade de Deus o tráfico de drogas é mostrado como uma atividade de escalada épica, partindo de certa ingenuidade no início para se tornar, cada vez mais, irradiador de violência. Ao final da epopéia, vemos, nos dias atuais, uma disputa pueril entre crianças terminar em chacina. Moral da história: o criminoso que nasce é o psicopata infantil, que brinca com armas reais e mata o amiguinho sem o menor escrúpulo. Tropa de Elite fecha o ciclo da barbárie, mostrando a formação do policial psicopata que chega para executar o traficante psicopata.

A lembrança do Nascido para Matar é boa, como o exemplar mais contundente de um verdadeiro gênero de filmes de treinamento militar baseado em todo tipo de humilhação. Mas vale lembrar que no filme do Kubrick o massacre psicológico que é a transformação de um ser humano em uma máquina assassina terminava com aquela cena do suicídio no banheiro, enquanto em Tropa de Elite a cabeça estourada é a do outro, do trafica, do cara que matou o meu amigo de infância. E por melhores que possam ser as intenções de seus realizadores, o dedo que aperta o gatilho não é só o do Mathias, mas é o nosso também, porque já aprendemos, de tanto assistir aos piores exemplares do cinema mais belicista do mundo, que aquele que mata o nosso amigo deve morrer no final da sessão.

Dessa forma, toda e qualquer discussão envolvendo segurança pública (levando em conta que o pública em questão deve envolver do Luciano Huck ao cara que ganhou o rolex) vai pro espaço no momento em que, levados por aquela catarse, apertamos aquele gatilho.

 

 

Dica de cinema: para quem se interessa pela discussão, e pela possibilidade (bem vinda) de outros discursos, sugiro que assista um filme lançado recentemente por aqui em dvd. Chama-se Do outro lado da lei (no original Bonaerense), e foi dirigido pelo argentino Pablo Trapero (dos ótimos Mundo Grua e Família Rodante). O filme fala de um jovem, recém chegado de uma província do interior, que começa carreira na PM argentina.



Escrito por REVÓLVER NA MÃO DO MACACO às 09h11
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