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São Paulo não pode parar

[emilio]
Sabadão de sol. Nosso síndico acaju resolveu aderir ao dia mundial sem carro. Acho que esperaram o 22 de setembro cair no sábado pra inaugurar a data na paulicéia. A próxima vai ser em 2012.
Eu que comemoro a data diariamente fico apreensivo pra ver a reação da tucanalha. A espectativa é de forte adesão. Não dá pra saber exatamente o que isso significa, pois se todos os carros estacionados ocupam a área de 10.000 maracanãs, dá pra imaginar que o cenário não será muito alterado, não cabe guardar todos. Mas tirando essa equação que não fecha, a impossibilidade de desaparecer com essa frota bizarra, o que mais chama a atenção nessa onda civilizatória é mais uma vez a adesão maciça dos “formadores” a um movimento sem causa. É a dimensteinização social.
O que querem os cansadinhos de automóveis? Só pode participar do ato aqueles que têm carro. Então vão se manifestar contra a sua própria rotina. É isso? Algum tipo de autoflagelação fashion?
Mas o que querem de fato? Há uma pauta, uma reivindicação? Querem investimento maciço no transporte público?
O síndico cidade-limpa mandou pintar de cinza os pontos de ônibus vermelhos da marta, o draculão já havia reduzido as viagens possíveis com o bilhete único, não se pode mais carregá-lo na catraca, a integração com o metrô não saiu de fato (é a integração da década de 80, paga-se para integrar), pararam com os corredores pra investir nas calçadas da av. paulista. Enfim, tapar buraco volta a ser prioridade.
Querem o aumento do IPVA? Querem pedágio urbano?
Não querem nada disso. Querem continuar trocando de modelo todo ano.
Mas deixa os caras. Minha indignação é mesmo com essa rebeldia sem causa que tá virando moda. Os jornais bombando a bacaneza de se indignar, e a rapa acreditando que está realmente contribuindo para o avanço da civilização. Ou é mesmo só pra arrumar coisa pra fazer no fim de semana.
Enquanto isso o amigo Al Gore brada pela salvação do planeta, como se fosse possível dar uma meia trava na inevitável implosão desta joça. Logo ele que tanto fez enquanto era o vice-Rei do mundo.
Pois estou iniciando campanha pela aceleração do colapso. É o PAC Fim do Mundo. Em defesa da superioridade da espécie, podemos provar que cansamos da brincadeira e botar pra fuder. A campanha toda começa com distribuição de ovo cozido e pingado nas escolas de toda a China. É botar aquela molecada toda pra peidar junto. Uma semana de ovo e babau camada de ozônio.
Escrito por REVÓLVER NA MÃO DO MACACO às 13h05
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Comentando o Pé Sujo...

[da jonia]
A venda a crédito, o dinheiro digital! Quantas maravilhas!
A compra a crédito, como já dita por Zeca em seu artigo sobre o Serasa e agora com mais essa anedota do Pé sujo, eu afirmo: é a grande onda! Compramos no cartão mesmo sem ter esse dinheiro. A produção capitalista tem a grosso modo uma característica: do quantum que produzimos, consumimos apenas muito pouco... No sentindo clássico, desfrutamos do suficiente a nossa subsistência (capital variável) e o resto serve a valorização do capital e a subsistência do capitalista (mais valia).
O problema é que, com a popularização dos artigos de luxo (tv, Internet, carro e o que seja, do ponto de vista de nossa reprodução, entenda como luxo) e a facilidade do crédito criou-se uma situação que nos faz lembrar de velhos tempos atrás... Não, não é a escravidão. Pois afinal, a exploração através da mão-de-obra escrava já se demonstrou antieconômica no sistema de produção capitalista. O que quero lembrar aqui são os sistemas de contratação de imigrantes para as fazendas de café. Lembram-se? O sujeito chegava na fazenda e já estava completamente endividado com a vendinha. Trabalhava para pagar sua divida em carne, aluguel e roupa. Agora pensem... Imaginem a quantidade de bens e confortos que foram disponibilizados as pessoas nos últimos tempos: carros, sofás, dvds, comidas, bebidas, tv a cabo... a lista é infindável. Ou seja, antes o cara começava a trabalhar para pagar a sua subsistência, hoje para pagar essa vida esquizofrênica que inventamos. O cartão de crédito nada mais é que a vendinha da fazenda de café melhorada. Mas existia uma vantagem no século 19... Você podia sumir e não pagar porra nenhuma. O advento da microeletrônica e da melhoria das telecomunicações (leia-se Serasa) acabaram com essa possibilidade. Você não pode mais dar o calote, não existe mais isso. Eles te acham, te cobram e te constrangem. E o pior de tudo... E o empréstimo na folha? Facilidade, grande invenção de algum prêmio Nobel de economia... Pois saibam! Um amigo meu que trabalha no Banco do Brasil me disse: esse empréstimo só é concedido a empresas que tenham uma rotatividade abaixo de 20% do total da sua mão-obra. Na época onde o subemprego é fashion, quem está nessa???
Uma anedota: durante a ocupação da Reitoria da USP, fui tirar uma soneca pós almoço em um gramado nas cercanias da ocupação. Na frente da reitoria, ocorria uma assembléia do SINTUSP (sindicato dos trabalhadores da USP) e, ao meu lado, descansavam uns peões de uniforme verde, terceirizados, que trabalhavam na reforma de um prédio. Enquanto no microfone do SINTUSP, vinham frases como: “Não podemos mais ser explorados!”, a gargalhada explodia naqueles caras de verde, subempregados.: “Esses caras trampam pra caralho, né?” era a fala, em tom cínico, dos operários
Nos repartiram de tantas formas que trabalhadores não se reconhecem mais, ninguém se reconhece mais. Mas enfim, chegou o dia de eu pagar minha última prestação do meu conjunto de sofás Florida. Nessa hora, quem eu encontro na fila...
Escrito por REVÓLVER NA MÃO DO MACACO às 09h52
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Ôxente, seu Bahia, quero um teco dessa rapadura!

[pé sujo]
Dia desses, parado no ponto esperando o coletivo, em frente a uma loja das Casas Bahia, vi uma cena de lucidez política que me remeteu a tempos não vividos por mim, mas presentes na minha memória. Um sujeito - ex-vereador, segundo uma língua solta ao meu lado, que perdendo nas urnas nas últimas duas eleições, teria ficado louco - cheio de buzinas, nariz de palhaço, jornais velhos, uma pasta surrada, de couro, e muita criatividade, fazendo o maior carnaval em frente à loja, que deve ser a filial de número 3.000.000.00, ou mais!, na cidade de São Paulo. O cara parava o trânsito, apitava no ouvido das pessoas, jogava confete nos carros, pintava o diabo. Tive a ligeira impressão de só eu estar achando engraçado aquilo tudo. Não compreendi quando um senhor, vendedor de bala, correu dizendo: “Vixi, lá vem ele aí, lá vem ele aí...” Poxa, eu, talvez por alguma identificação que eu não sei explicar, imediatamente simpatizei com a criatura. Não sei se tive na ocasião, excesso de ternura, ou se a massa, enraivecida, anda dura demais nesses últimos tempos.Sei que o sujeito me chamou a atenção.
O sujeito foi de uma ousadia, demais até para a minha concepção libertária. Num certo momento, ele adentra a loja, fica de pé na porta chamando os pedestres. Quem por ali passasse, teria a impressão de se tratar de mais algum personagem de feriado, que a loja contrata para capturar crianças e idosos. Mas bastava ficar dois minutos no local e logo veriam que o que se passava ali, era uma manifestação política. Ele gritava, enquanto sentava nos sofás do mostruário, mexia nas tvs de plasma, abria geladeiras, etc...: “Venham todos pra cá. Essa casa é de vocês...Podem vir, sentem, tomem um cafezinho, a dedicação é total...Venham, o seu Bahia é generoso, tá tudo baratinho, o seu Bahia é tão bonzinho, ele ama vocês, ele adora os pobres...as Casas Bahia é a casa do povo pobre...quer pagar quanto? Vem minha senhora, o seu Bahia está na luta pelos aposentados...tudo em 100x com desconto direto na conta...a senhora nem vai sentir...” Ele ia percorrendo a loja, jogando aqueles folhetos na rua, enquanto os vendedores, o gerente desesperado e um segurança, tentavam tirar o encosto de dentro da loja. Com muito custo, conseguiram. Mas ele continuou na rua, gritando e fazendo a mesma zona. Coitado, a aparência humilde e escrachada, não permitiu que a massa ouvisse as palavras daquele sujeito, levando tudo como piada e naturalmente tomando-o como louco, bêbado e vagabundo.Não diferente de uma porção de revolucionário que morreu na época da ditadura. Depois de certo tempo, ele sumiu, cantando uma música, acredito ser de autoria própria, que dizia:
“Ôxente seu Bahia
A vida tá dura
eu quero um teco dessa rapadura”
O fato é que as Casas Bahia, desde 2004, vem tendo um faturamento bruto de aproximadamente 10 billhões de reais no ano. Tem uma clientela ativa que ultrapassa os 13 milhões e investe rios de dinheiro numa propaganda que faz qualquer um se sentir o parente mais próximo do velho Samuca Klein. Imagina se alguém vai dar ouvido a um louco que ousa contestar a beneficência do bom velhinho polonês. Oras, nunca!
Fora, seu doido! Vai trabalhar igual ele trabalhou, vagabundo! Quer moleza? Tem moleza, não...vai trabalhar, vai trabalhar!
Depois que eu peguei o ônibus, um pouco mais a frente, notei que ele estava parado na porta de uma loja Marabrás. Notei também que ele estava quieto e de cabeça baixa. Fiquei sem entender...
Bem, talvez ele seja um fã incondicional do Zezé de Camargo, vai saber? Ninguém é perfeito...
Escrito por REVÓLVER NA MÃO DO MACACO às 16h09
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BOLEI!

[zeca ferreira]
Tropa de elite na boca do povo
Não se anda pelas ruas centro do Rio de Janeiro (e hoje, acredito, de qualquer grande cidade brasileira) sem tropeçar no fenômeno que se tornou o caso “Tropa de Elite”. Após o extravio ainda não explicado de uma cópia de trabalho, o filme rapidamente caiu no gosto popular via pirataria. Aos passantes, os camelôs fazem com competência o boca a boca do produto, mandando levar porque “esse filme esculacha”. São unânimes também na aprovação do elenco, em especial do onipresente Wagner Moura, e das cenas de ação. Com um olho no rapa e outro no freguês, o ambulante do Largo da Carioca me garante que esse é o melhor de todos os filmes brasileiros e muuuito melhor que o Duro de Matar 4.0 , também disponível na sua barraquinha.
Uma carta dura do diretor do filme aos jornais serviu para expressar sua indignação, e, principalmente, para afastar as insinuações maldosas de que tudo não passava de um golpe de marketing. Teria sido genial.
José Padilha levanta também o prejuízo que o ocorrido já trazia ao filme e seus proprietários (equação de difícil comprovação, pois, ao que tudo indica, o marketing involuntário deve ajudar a levar o filme longe), e aponta sua artilharia para o rabo dessa cadeia alimentar: o público. Seguindo naquela tese de culpabilizar o consumidor pelo tráfico, aponta todos aqueles que, por jornais ou internet, lançavam comentários sobre o filme, como cúmplices do grande crime do qual foi vítima.
Alheios a essa discussão, os passantes se aglomeram nas vielas do centro em torno de pequenos dvds portáteis que fazem a demonstração do filme-esculacho da temporada.
Nos blogs e sites o caso é tratado como um fenômeno cultural. Quase todo mundo já viu o filme, e ninguém parece sentir culpa ou vergonha por isso, como quer o diretor do filme. E a pirataria propriamente dita - com os filme embalados em versões xérox dos cartazes e alguma forma escusa de distribuição – é apenas uma entre as muitas maneiras de se ter acesso a um material como esse.
Mas de tudo o que foi dito e escrito, me chamou a atenção a entrevista do Gilberto Gil à Folha de São Paulo. Sempre em seu estilo barroco, Gil ponderou, trazendo para a discussão elementos contemporâneos, dizendo respeito exatamente à naturalidade com que se faz esse tipo de cópia atualmente. Para além de qualquer reflexão legal, existe uma cultura, hoje, que permite a um jovem pegar na internet a informação que lhe convém – uma música, um texto, um filme – sem qualquer sentimento de culpa ou desvio. E entra no balaio, claro, a impossibilidade de se pagar por isso pela maior parte da população brasileira. O dvd de “Tropa de Elite” esculacha para uma boa parte da população que não cultiva o hábito de ir ao cinema apenas por não ter o dinheiro necessário para isso. O filme é um caso raro, pra não dizer inexistente, no cenário do cinema brasileiro atual: um sucesso popular.
Nas palavras do próprio Gil, o caso expõe “o paradoxo entre o mercado e o acesso”.
Na contra-mão do discurso criminal, e da hipocrisia da correção política, Gil levanta questões mais profundas, procurando significados e sugestões no verdadeiro fenômeno de massa que se seguiu ao extravio da tal fita.
Leio a sua entrevista e não resisto a uma maldadezinha:
Esse cara devia ser o Ministro da Cultura!
Escrito por REVÓLVER NA MÃO DO MACACO às 08h44
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O dia em que fui a Paris.

[dajonia]
Paris sempre foi um mito. Para além das aulas de história na escola, das revistas de moda ou dos documentários, meu pai sempre falou dessa cidade maravilhado. Viveu lá em 1969, acho. Sempre falou bem e, é verdade, desde que entrei na faculdade, demonstrou sério interesse (para não dizer tara) que um dia eu fosse parar em alguma Paris 7,8,9,10, ou o que seja.
Mas, o que me moveu mesmo foi uma amiga. Na verdade, a gente se conheceu muito pouco e pareceu que havia anos que havíamos nos encontrado... Depois de muito tempo sem se ver. Não, não vou entrar em detalhes sobre isso. Vou apenas falar de quando cheguei em Paris e o que aconteceu.
Enfim... Depois de 12 horas, desembarco no Charles De Gaulle. Esse tipo, muito parecido com Franco Montoro, foi aquele tipo de filha da puta que nunca fez nada e ainda saiu como herói. Grande coisa! Anti-Americano? Sempre me pareceu um resquício da França do XIX... Um último suspiro de aspirante a potência mundial. É como o Montoro. Guardião de algo que nunca existiu (ou depósito de lixo ideológico, que é reciclado constantemente por aqueles que não querem saber de transformação nenhuma).
Minha amiga foi para um casamento na Itália e ia voltar em duas ou três horas, ou seja, tenho um tempo pra andar por ai.
Baixei em Gare du Nor. Estação grande, colunas verdes, com trens no horário. Me parece que as pessoas andam mais agasalhadas e que, talvez, a lei “Cidade Limpa” tenha passado por aqui. Umas vozes, um monte de voz. Não identifico idioma, ou o que seja. Mais ou menos como a Estação da Luz: me dá a impressão que muita gente fala árabe...Não entendo nada do que falam.
Mas ok. Falta um tempo pra minha amiga chegar e vamos lá...Descendo a primeira diagonal, me deparo com a grande herança da França Moderna! A PRAÇA DA REPÚBLICA! Esperamos 100 anos por isso? Existem controvérsias... Mas enfim, virou estátua em Paris, é verdade, não é? Não é maior que o Mausoléu do Napoleão, ou ao Obelisco roubado do Egito. A república é algo muito estranho, até mesmo pra essa gente que se acha descendente direto de Roma. Acho a República algo muito aristocrático ops... Outra diagonal (cheia de árvores) e chego onde??? Ah sim! A grande vitória do povo contra seus opressores! A BASTILHA!!! E onde está a Bastilha?
“EIS O CRETINISMO BURGUÊS EM TODA A SUA BEATUDE!”
Não seria essa a frase de Paris?
Ok, ok.... Escutamos muito sobre a tomada da Bastilha e ao mesmo tempo existem excursões ao Palácio de Versalhes. (e o prédio da Bastilha? Virou posto de seguro desemprego? Nã! Desapareceu mesmo)
Não sei se continuo o tour.
Escrito por REVÓLVER NA MÃO DO MACACO às 12h05
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