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Café, aspirinas, urubus e crack.

[dajonia]
Na empresa em que trabalha uma amiga, uma vez por ano, se realiza a vacinação dos funcionários contra gripe. Indaguei a ela sobre porque se recusava a ser vacinada. Com grande naturalidade, me respondeu que, no decorrer do ano, ela considera de grande importância essa falta de 4 dias por causa da gripe. É a uma forma de luta passiva e individual, mais ou menos como o núcleo são do senso comum de Gramsci.
Hésio Cordeiro tem um livro muito bom sobre a indústria farmacêutica. Um dos pontos que mais chama atenção é quando ele nos leva a refletir sobre uma função dessa indústria, função muito importante no século XX: a locomoção da mão de obra nos grandes centros urbanos gera um desgaste da força de trabalho (dispêndio de força, suor, músculos e nervos, como nas palavras de Marx) que não cumpre o papel de transformar esse dispêndio em trabalho morto, ou seja, valor. Nesse ponto entra não só a indústria farmacêutica, mas também o café como substância útil à recuperação de energia que, tanto pela locomoção como pelo próprio dispêndio de força de trabalho, é essencial a produtividade do trabalhador. Como símbolo máximo da moderna indústria farmacêutica, podemos pensar a aspirina. É só analisar a relação que suas propagandas fazem entre a menor produtividade e a dor de cabeça: sempre no escritório ou no trânsito, o sujeito é acometido da maldita dor. Sempre representada como algo natural, incômodos e enfermidades resultantes da locomoção e do trabalho aparecem como assunto médico e rapidamente nós é dada a solução: a aspirina.
Esses são os subterfúgios que o capital encontrou para contornar nossa mortalidade, desgosto e desgaste.
Aqueles trabalhos enlouquecidos sobre “O que uma sonequinha de trinta minutos depois do almoço pode ajudar o trabalhador” ou de como ioga e exercícios no âmbito de trabalho ajudam a aumentar a produtividade são a coqueluche da nova (velha) sociologia, agora aliada a química e a biologia.
O pior de tudo é que as coisas sempre aparecem repartidas e se apresentam de forma contraditória: é inegável que, no sábado de manhã, você quase acenda uma vela em homenagem ao Senhor Bayer que vai te salvar da ressaca. Mas, e saber que tudo isso leva em conta o fato de que a aspirina serve para sua bebedeira não te atrapalhar na vida profissional? Aquela pergunta clássica de manuais de identificação de alcoolismo “O álcool já atrapalhou a sua vida profissional?” deveria ser invertida.
O controle biológico do trabalhador é uma utopia capitalista. Em 200 anos, se domou, se acostumou as pessoas ao trabalho de forma tão esplendorosa que hoje nem imaginamos como podemos sair dessa. O problema, e ai eu volto ao primeiro parágrafo, é justamente que ainda havia vias de resistência: a gripe, o alcoolismo, a preguiça ou mesmo o crack para aqueles que queriam se anular completamente frente ao mundo.
O novo mundo puritanista, longe do álcool e do tabaco, onde até mesmo a tristeza tem remédio, nada mais é que a genial reinvenção das formas de exploração de nosso querido modo de produção.
Lutemos pelo nosso direito a preguiça, a falha e a incompetência!!!
Escrito por REVÓLVER NA MÃO DO MACACO às 16h14
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B O L E I !

[zeca ferreira]
A “elite” e os outros - parte1
Elite.
É curioso como a simples menção ao termo tem provocado calafrios na imprensa tupiniquim. Acomodando-a entre aspas e itálicos, parecem referir-se aos que usam a palavra como obviamente antiquados, deslocados, e, claro, mal-intencionados. A despeito de uma pirâmide social imutável (aquela mesma, sem tirar nem por, dos meus tempos de colégio), não há qualquer censura aos usos e abusos do sempre presente povo (ou povão, para os íntimos), sem necessidade de aspas, itálico, negrito ou explicações a respeito do caráter e intenções de quem escreve. Já elite é diferente; “elite” é complexo, ambíguo, rico em significados (e rico de uma forma geral). Usar a palavra sem um acompanhante abonador – elite intelectual, por exemplo, é lindo – é óbvio sinal de má fé, interesses obscuros e corrupção.
Fantástica a matéria da Carta Capital ainda nas bancas, onde, sem aspas ou itálico, dá-se voz a alguns membros dessa tão discutida classe social (podemos falar em classe social ou é feio?). Aliás, a matéria guarda elogiáveis pontos de comparação estilísticos com outra mencionada aqui semanas atrás - aquela que falava do cavaleiro André Lara Resende e seus companheiros de elite. Da mesma forma que aquela, não trás novidades bombásticas, escutas telefônicas, fotos de e-mails pessoais ou de assessores palacianos em gestos obscenos; a partir de alguns depoimentos e informações discute algumas idéias responsáveis por movimentos da moda como o Cansei! e o seu correlato carioca, o já quase esquecido Basta! Simples assim, informação e discussão.
Não a tenho em mãos para citar textualmente (aproveitem e corram ás bancas que deve ser o último dia!), mas é basicamente o seguinte: a culpa (pelo que o Brasil é) é do povo. Enquanto a tão criticada elite tem a possibilidade de sentar nos melhores bancos universitário e consumir valores nobres, o pobre, coitado, sem esse acesso, fica restrito ás preocupações comezinhas do dia-a-dia: o dinheirinho pra pagar o aluguel, o jeitinho, seja qual for, pra resolver o imediato. Dando-se um verniz, digamos assim, científico a essas profundas reflexões, chega-se logo àquela conclusão de que o pobre é mais condescendente com a corrupção e os desvios éticos, tão discutidos atualmente.
(?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!)
Essa maquinação complexa surge da boca de diversos entrevistados, demonstrando uma espécie de senso comum a guiar corações e mentes dos cansados moradores do andar de cima.
Esse senso comum, por sinal, me parece bem mais preocupante que as passeatas e palavras de ordem de um movimento como o cansei!, que já nasceu condenado ao ridículo, na caricatural Campos do Jordão com o caricato João Dória “Sucesso” Jr à frente. Se o movimento é risível, a propagação das idéias mencionadas acima é óbvio sinal de que as coisas não vão acabar bem.
“Não se enganem, o Brasil é isso mesmo que está aí”.
Por outro lado (ou seria pelo mesmo lado?) chama a atenção a ressonância da frase acima, do ex-presidente e atual comentarista político fegacê, retirada de matéria da revista Piauí (aquele estado que, seguindo pela tortuosa lógica acima, não deveria nem existir). Pelo menos aqui no balneário, não foram poucos os “articulistas” que viram na sentença palavras do oráculo, forma poética para pensamentos desordenados que todos traziam dentro de si.
“O Brasil é isso mesmo que está aí”. Tento descobrir a poesia, ou a verdade mais profunda, mas confesso que só vejo cansaço. Não o cansaço raivoso, beligerante, que isso é coisa de esquerdista, mas um cansaço enfadado, bocejante.
“Não se engane, meu rapaz, o Brasil... o Brasil é isso mesmo que está aí.” Imagino o ex-presidente dizendo isso enquanto se levanta com certa dificuldade da cadeira de balanço, dá dois tapinhas carinhosos na bochecha do interlocutor, e segue, entre pigarros, na direção do quarto.
Escrito por REVÓLVER NA MÃO DO MACACO às 12h35
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B O L E I ! (I)

[zeca ferreira]
Deduragem S/A
Quem deve, teme.
Edifício Máster, documentário de Eduardo Coutinho, começa com o relato de uma senhora que, após sofrer um mal explicado golpe que lhe custara todas as economias, resolve se suicidar. Ela vai até a janela, olha o movimento lá embaixo e desiste, ao se lembrar de uma dívida que contraíra por crediário em uma loja de departamentos. Se pulasse, morreria marcada pela dívida não paga.
E assim gira a roda. Num tempo de crédito farto e fácil, de parcelas intermináveis e juros impublicáveis, faz parte da moral do brasileiro médio a idéia de que dignidade e honra se medem pelos carnês pagos mensalmente. Mas o autocontrole é pífio diante do assédio cotidiano – de pagodeiros sorridentes a simpáticas velhas atrizes oferecendo “crédito fácil” na televisão – e as dívidas se acumulam, superando em muito o orçamento mensal. Dignidade e honra ameaçadas, noites mal dormidas e surge a solução rasteira, vinda diretamente da televisão (de 30 polegadas, tela plana, comprada em 24 prestações, a primeira só depois da Copa do Mundo!): mais uma dívida, só que dessa vez é dívida pra pagar dívida.
Muito a propósito, lendo o caderno de economia e acompanhando o campeonato de lucros do sistema financeiro, dou de cara seguinte notícia: uma semana depois do Bradesco anunciar o recorde histórico de faturamento, o Itaú (sempre ele) supera a marca, obtendo o maior lucro da sua história. Dentre os motivos apontados para esse resultado, destaca-se a venda de parte do SERASA para um grupo de investimentos irlandês. Paro, volto a frase: a venda de parte do SE-RA-SA?!
Talvez não seja nada demais, ou talvez seja apenas ingenuidade da minha parte, mas o SERASA era do Itaú??? (E também do Bradesco, segundo a mesma matéria). Como todos sabem, o SERASA é a fantástica instituição responsável por medir a emitir atestados de honra e dignidade para o brasileiro médio. A expressão entrar no SERASA significa dormir mal, perder parte da honra e da dignidade, além de adiar os planos de novas compras no crediário. Já sair do SERASA é voltar a andar de cabeça erguida, é passar um cheque sem medo de ser repreendido por um gerente arrogante (ele também equilibrista, repleto de dívidas secretas).
Sempre imaginei o SERASA como uma instituição superior, um prédio em Brasília repleto de senhores engravatados e circunspetos, com um elevador que vai até o céu, onde, os casos mais graves seriam levados ao conhecimento do senhor. Até por trabalhar basicamente com culpa e redenção, imaginei que o SERASA talvez fosse um braço da igreja católica.
Mas não. Segundo aquela matéria o SERASA nada mais é do que um grande e lucrativo negócio no ramo da deduragem. E, de agora em diante, se não pagar aquela salgada prestação do celular com câmera e MP3, já sabe, seu nome vai direto pra mesa de um gordo senhor irlandês, provavelmente católico, que passa a administrar o purgatório por onde vagam a sua honra e a sua dignidade.
Escrito por REVÓLVER NA MÃO DO MACACO às 15h55
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B O L E I ! (II)

[zeca ferreira]
Trocando em miúdos
Depois das mais alucinadas versões, a história contada pelo jornal carioca EXTRA parece a mais verossímil (é certamente a mais documentada) para a aventura carioca vivida pelos dois pugilistas cubanos. Após torrarem 80 mil reais em uma semana, entre garotas de programa, videogames e corações de frango, arrumaram as malas e resolveram voltar pra Cuba, onde ganhariam, é certo, um castigo, mas teriam muita história pra contar.
Diante dos testemunhos e descrições que a matéria trazia, a imprensa parece que desistiu de testar suas hipóteses de intrigas, perseguições e espionagem, uma vez que o caso apontava mesmo para a chanchada. Mas, acostumados a torturar os fatos até tirar deles as verdades de sua preferência, seguiram com seus argumentos a partir de uma premissa intocável: ninguém, em sã consciência, pode querer viver em Cuba.
Mas, diante de tantos pontos de vista, opiniões e ideologias, um fato singelo: depois de gastar fortuna incalculável para fazer bonito no pan-americano (como eles dizem, um vestibular para as olimpíadas), e empurrados pelo fervor patriota dos nossos galvões, o Brasil conseguiu o maior resultado de sua história na competição. Recordes, exibições de gala, novos ídolos despontando, o Pan do Rio foi um grande sucesso. Mas isso não foi capaz de fazer com que o país superasse em medalhas a tal ilhota, hoje longe dos tempos em que, abastecida pelo dinheiro russo, fazia frente às grandes potências mundiais.
Escrito por REVÓLVER NA MÃO DO MACACO às 15h55
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Pô, um lero sem compromisso...

[Pé Sujo]
Resolvi depois de muito tempo, contribuir para a não extinção de nosso querido amigo, o primata do dedo nervoso. Também, como poderia negar um pedido tão carinhoso de meu amigo Paulo O Emílio, em nosso último encontro? Chegou a me cortar o coração.
Sou um freqüentador assíduo dessa mesa de pé sujo, porém, como um bêbado às avessas, prefiro ouvir mais e falar pouco. Quebro aqui, hoje, o que mais prezo em minha vida: o silêncio absoluto. Aliás, se o silêncio fosse mais praticado, certamente teria concluído o aborto do Cabo Anselmo.
Bem, como um freqüentador, curioso e tudo mais, não pude deixar de notar a frase que diz: “LEIA ESSE BLOG NO SEU CELULAR”
Porra! Conheço, além de mim, mais duas pessoas que não possuem celular por opção: Um mendigo que certa vez me disse que o celular é “grupo dos home” e a tia de um amigo meu que não se conforma com o fato de um aparelho ter nome de ator de novela. Diz ela: “Que egocêntrio ele é!” Seria engraçado, se não fosse verdade.
Enfim, tal frase fez-me repensar a utilidade do objeto mais usado que a privada. Muito embora os dois sejam muitas vezes usados para o mesmo fim, há luz no fim do túnel. Imaginem só que maravilha seria, as pessoas entretidas com os comentários de Paulão, Da Jonia, Zeca Boladão e outros tantos colaboradores bêbados que aqui se apresentam vez ou outra. Garanto, caros amigos, que isso aliviaria ainda mais boas horas confortáveis nos coletivos e filas de banco.Sonhar não custa nada!, já dizia a vinheta da ‘punheta cerebral’.
Isso foi apenas uma apresentação desnecessária. Vou ficando por aqui, sem mais papo furado, esperando o tempo melhorar. Afinal, não possuo o milagroso aparelhinho chinês que é capaz de tornar o tempo favorável ao bom humor do manda-chuva e que vai garantir dias ensolarados e céus celestiais para os jogos olímpicos de 2008.
É...do céu pro inferno, só muda o nome do ditador, enquanto na terra, eles ficam tentando imitar aquele que está nas tendências da moda...
Fui!
Escrito por REVÓLVER NA MÃO DO MACACO às 13h10
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Pelas palavras do mestre Milton...
 [taqueda]
Não consigo lembrar de inspiração melhor para minhas próximas palavras do que alguns shortcuts que ora pesco do geógrafo Milton Santos. Disse ele uma vez: “o Brasil é um país que não tem nem nunca teve cidadãos. Isso porque sua classe média, muito mais que direitos, quer privilégios. E a parcela pobre, por sua vez, sequer tem direitos”. É do mesmo pensador a inaguração, em âmbito nacional, da noção de que o território geográfico e suas transformações são a manifestação concreta e sólida, ou, melhor dizendo, palco marcado que, por isso, exprime concretamente a dimensão espacial das lutas de classe. O cenário que tomou conta desse nosso mercado em ascensão, que é o mercado do consumo em massa da tragédia, pelos meios televisivos, impressos e todos os que porventura possamos lembrar, teve como seu ganha-pão recente o infeliz episódio da tragédia do vôo da TAM. Pensando mais friamente, após um período razoável de digestão das informações sobre toda a questão, chego a uma conclusão quase besta: São Paulo, como qualquer cidade dita globalizada, carrega dentro de si sua própria geopolítica. Uma geopolítica torpe, bem se sabe, pois sua dinâmica é montada por um jogo elementar protagonizado por três personagens representativos: o primeiro, um governo clientelista, o segundo, um setor empresarial e uma elite privilegiada, e o terceiro, uma grande maioria que, à luz dessas questões, quase se faz ver minoria. Quem são esse último que citei? Sou eu, é você que, se é que viajou uma vez de avião, não consegue ver essa realidade como sua, afinal de contas, nada disso faz parte de sua rotina. A tragédia só o é, para seus olhos, dada sua dimensão humana. Você, como eu, que tem dificuldades em vê-la como um pretexto político, pensa no caos aéreo como coisa de outros. Isso é sintomático de sua breve exclusão. Isso é sintomático de que você é o terceiro personagem. Lembre-se: um membro da elite consome passagens como manteiga. Você ainda pensa que existem talões de passagem. Ter visto o problema inicial, tragicamente marcado pela abertura de uma ferida em uma quadra da cidade em que vivemos, tendo este fato como resultado a triste morte de quase 200 pessoas, foi apenas, se é que poderíamos supor isso possível a fumaça indicadora dessa geopolítica pútrida. Uma geopolítica que consegue alastrar em questão de dias a fúria do segundo personagem que citei: a forte iniciativa privada. E que já consegue inclusive organizar nas ruas seus bastiões. Ver um sujeito como o auto-intitulado “Larry Flynt” brasileiro, Oscar Maroni, alguém que eu sempre conheci, pelas minhas leituras ocasionais dos documentos da mídia, como peixe grande da indústria do divertimento, parecer, por intermédio do escandaloso Estado, cachorro enxotado perante os interesses (por que não colocar assim?) territoriais das empresas aéreas, é, para mim, o mesmo que constatar o inexorável futuro: a briga é para os peixes realmente grandes. O terceiro personagem, a saber, eu você e todos os outros que, na totalidade ou na grande maioria das vezes, só vislumbramos o Aeroporto de Congonhas pela ótica do Google Earth, quando muito, está fadado a virar estrume. E o que é mais engraçado: Maroni, não obstante dizer-se amoral, e não ilegal, consegue fazer pena. Colocado diante do grande interesse que, sabemos, não é obra deste governo específico, se torna uma brincadeira de criança. E dançará junto conosco, a não ser que consiga se recriar nesse reciclável mercado do espetáculo do grotesco. Se Milton Santos estivesse vivo, talvez, constataria: o território que ora se coloca como horizonte diante de nossas vistas, se pensarmos tudo como um jogo, não é um tabuleiro tão simples como parecia. Há novas relações de poder. Considerado o fato de que você, terceiro personagem, assim como o Maroni, é peão comido e colocado de lado, restam os cavalos, as torres, os reis e as rainhas. Mas eles também precisarão se expulsar mutuamente. A coisa é braba... A propósito disso tudo, conto a vocês uma experiência emblemática pela qual passei no dia de hoje. Fazia eu uma avaliação física para medir minhas possibilidades nas aulas de natação que ando freqüentando, e, por falta de ter com quem falar ou sei lá o que, a professora de educação física que fazia o tal teste, a pretexto de ter comigo algum assunto, iniciou o seguinte diálogo: - O que você faz? - Sou arquiteto. - Trabalha por aqui? - Sim, fui recém-convocado por concurso público para a prefeitura desta cidade. - Ah, que legal. E o que você faz como arquiteto nesse emprego? - Faço parte do programa de urbanização de favelas. Penso que urbanizar favelas é um paliativo, mas, sei lá, mil coisas... (não preciso contar a vocês esse trecho todo). E, então, a tão quase esperada resposta da simpática professorinha: - Ah, eu acho que há um jeito de resolver o problema das favelas em São Paulo: proibir a imigração de gente de fora para o nosso Estado.
Bom, nossa amiga, com seus vinte e poucos anos, parece ter uma perspectiva bem peculiar no que diz respeito a como funcionam os conceitos de cidadania. Mas cidadania, como nosso geógrafo anunciou antes de partir, é coisa que, no território tupiniquim, desconhecemos de fato. E isso pouco importa no jogo que está lançado. A professorinha, que em breve vai casar e financiar seu apartamento na Caixa, não quererá ser cidadã. Está apenas debutando, colocando seus pés ingênuos no tabuleiro do jogo. Ela carrega em si o mais fecundo gene que podemos ter na nossa grotesca geopolítica municipal: ver-se, antes de tudo, como um jogador, e se tudo der certo, futuro cliente privilegiado. Resta-lhe apenas a tarefa decidir se conseguirá, na reta final, ser torre ou rainha. Ou se acabará virando imigrante em seu próprio território, peão afastado ou, como bem poderíamos dizer, peixe pequeno fora d´água.
Escrito por REVÓLVER NA MÃO DO MACACO às 16h02
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pílulas
 [DomT, o zarolho] Pára, pára... demorou, mas os Nostradamus atuais, os visionários do caos, alertam para o inevitável: outro acidente aéreo no Brasil, com 600 mortos, no dia 29 de outubro! E o governo não faz nada! E a população, principalmente os internéticos (se é que eles podem ser considerados a população brasileira) esperneiam. E espalham a má-nova. Até não-incluídos digitais já vieram comentar comigo: c viu? Vai cair outro... é, o do ome não cai, não trava o reverso... Agora comentamos de reverso e de manete com a mesma desenvoltura e ganho de causa que discutimos o impedimento de domingo. Mas o que o governo pode fazer contra esta maldição? Aliás, o que o governo tem a ver com isso? Tem de cancelar todos os vôos no dia 29/10? Parar o país? Espalhar redes de segurança pelos céus? E como vão ser 600 almas perdidas? Vai cair onde? Se procurarmos a origem da notícia, vamos encontrar a Mãe Dinah que registra em cartório suas premonições: o sr. Da Luz. O mesmo que previu um atentado contra o papa que não houve, segundo ele porque a agenda do santo homem foi sabiamente mudada pelo Vaticano. Que previu a morte do Celso Daniel, avisada à cúpula do PT, que obviamente nada fez. O mesmo que previu o Alkmin como novo presidente, e que afirma que houve fraude eleitoral e mudança de programação na urna eletrônica. O mesmo sujeito, que tem processo pela própria auditoria dos cartórios contra fraude nos documentos registrados. Francamente... Agora o bombardeio vem até dos astros.
Escrito por REVÓLVER NA MÃO DO MACACO às 13h45
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Rigondeaux bumma-ye

[emilio]
Articulista de sotaque ligeiramente tucano (digo, ponderado, quase apolítico como está na moda) admite que lhe causa incômodo a forma como o caso dos cubanos tem sido tratado pela imprensa. Diz que está se parecendo em algo com a cobertura imediatamente posterior ao acidente da TAM. Já se condenou a PF, o Ministério de Relações Exteriores, Fidel e o Ministério da Justiça. Sem que se saiba exatamente os meandros da “supostamente” engraçada aventura.
É certo que se divertiram com garotas, encheram o caneco de red bull e gozaram de uma temporada no litoral norte fluminense, patrocinados por uma espécie de Juan Figer do “boxe europeu”. Enquanto isso o tal empresário alemão dizia que os tinha contratado e que estariam em algum país aguardando documentação para irem à Alemanha. Nada disso foi confirmado, a PF os achou após denuncia anônima de moradores de Araruama, provavelmente estranhando dois negros com dentes de ouro gastando dinheiro.
O fato é que muito pouco se sabe para acusar as autoridades de ter-lhes negado asilo. O que se sabe, aliás, do delegado que cuidou do caso, é que eles disseram querer voltar a Cuba. No entanto, como se trata de Cuba, não dá pra acreditar em nada, nem no que eles dizem, nem no que dizem delegados “do Governo”. Talvez a Dora Kramer saiba realmente o que eles pensam, uma vez que seus cérebros estão “supostamente” contaminados por alguma bactéria inoculada pelos “médicos” do Regime, impedindo o processamento perfeito das idéias. Sorte que temos os articulistas, que fazem com precisão essa mediação, tão necessária em tempos de apagão político.
Editorial da Folha ontem sugere que parentes dos dois devem ter sido alvos de ameaças pelo “Regime de Fidel”. Assim mesmo, sem qualquer “suposto” depoimento de alguma “suposta” fonte, “supostamente” mantida em sigilo. Inventaram uma forma qualquer de tortura ou ameaça, sem nenhum constrangimento, simplesmente como se isso fosse uma prática comum de um regime “autoritário”. (Pra não dizerem que estou de sacanagem, aí vai: “É altamente provável que autoridades cubanas tenham feito ameaças a familiares dos boxeadores para convencê-los a retornar, expediente clássico usado desde sempre por Estados autoritários.”)
Os termos são mesmo os da guerra fria. “dois seres humanos estão à mercê da vingança do regime de Fidel Castro”.
Busco fora qualquer coisa mais aproximada do que nos acostumamos a chamar informação. Confesso que a tarefa tem sido cansativa.
Para os que não querem perder tanto tempo, há o velho e bom Granma. Além dos textos do “moribundo” Comandante (que ainda não foi acusado de ter um ghost-writer) há uma extensa entrevista com Lara e Rigondeaux. Provavelmente feita sob tortura chinesa (oops, chinesa também já não pode, agora eles são bacanas).
Escrito por REVÓLVER NA MÃO DO MACACO às 12h38
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B O L E I !
Cada macaco no seu galho
[zeca ferreira]
A reação histérica que se seguiu à divulgação dos últimos índices de popularidade (alta) do presidente me fez pensar se a nossa festejada democracia agüentaria o tranco de um governo de esquerda.
(Parêntesis quase desnecessário: esse não é um governo de esquerda, o próprio Lula é o primeiro a dizer. Embora os termos esquerda e direita estejam um pouco fora de moda, e aqueles que os proferem sejam logo ridicularizados nas folhas, vamos resumir a coisa da seguinte forma: governo de esquerda seria aquele que tivesse como prioridade a redução da pornográfica desigualdade social desse país, metendo, para isso, a mão na cumbuca daqueles que têm lucros igualmente impublicáveis baseados sobretudo na exploração dessa mesma desigualdade. Os lucros recordes dos grandes bancos, publicados essa semana, fazem coro ao presidente: esse não é um governo de esquerda. Ainda assim, é um governo com uma sensibilidade social bem maior do que a daqueles que o antecederam (sabe aquele lance de “nunca antes na história desse país”? Então, mas não pensem que isso seja lá grande coisa), o que pode ajudar a explicar a manutenção dos tais índices de popularidade, tirados obviamente a partir de alguma comparação.)
Os jornais da semana carregaram no já conhecido viés preconceituoso, fazendo lembrar o período eleitoral. A culpa pela inabalável popularidade do barbudo (que, para ficar no barato, já derrubou 2 aviões em menos de um ano) vai para os ombros cansados daquela figura abstrata responsável por todo o atraso que nos faz diferentes, por exemplo, dos franceses: o povo. Gente simples, como a manicure da Eliane Catanhede (Folha - http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz0508200704.htm) ; gente sem “capacidade crítica mínima”, como diz o Arnaldo Jabor (CBN -http://cbn.globoradio.globo.com/cbn/comentarios/arnaldojabor.asp)
; gente “incapaz de processar as informações que recebe”, nas palavras do Merval Pereira (O Globo, 07/08/07).
O preconceito é tão arraigado, toca tão fundo a verdade dessas pessoas complexas, que sai naturalmente, não sendo detido nem pela auto-censura do politicamente correto presente no homem de bem contemporâneo. Recentemente, quando a crise aérea ainda não ganhara os contornos mórbidos de hoje, chamou-me a atenção a coincidência de algumas idéias presentes em artigos de dois ou três de nossos mais célebres colunistas. Falavam, num misto de nostalgia e ironia, de um tempo em que os aeroportos eram como ilhas de conforto e prosperidade em nosso país (exemplo em concreto e mármore do nosso DNA europeu), com uma bossa nova tocando baixinho ao fundo, pessoas bem trajadas conversando com discrição. Hoje, com suas filas barulhentas, povoadas por gente de chinelo de dedo, chegava a se assemelhar a uma (oh!) rodoviária (?!). É aquela história do cara que divide feliz uma fila no Charles de Gaulle com um operário francês em férias, só pelo prazer de falar um pouco na língua de Balzac, mas não pode suportar a idéia de compartilhar o mesmo check in com o taxista do Grajaú levando a família pra Porto Seguro.
Houve quem acreditasse (esperançoso ou paranóico) que esse governo, após aquele período de reconhecimento e afirmação, daria uma guinada para a esquerda, mostrando uma suposta verdadeira face, tese hoje já bem desacreditada. E há os que defendem um governo assim, digamos, conciliador, como a única maneira de se fazer mudanças necessárias sem que a nossa democracia seja mais uma vez esfacelada (se não por tanques de guerra, quem sabe por um repentino caos na economia).
Confesso que tendo por um lado a popularidade das últimas pesquisas, de outro as reações preconceituosas listadas acima, a vontade que dá é de pagar pra ver.
Acorda Lula!!!
Escrito por REVÓLVER NA MÃO DO MACACO às 14h52
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Civilização e Barbárie
[dajonia]

Creio que essa dicotomia se impõe ao homem desde o dia em que ele se diferenciou de uma pedra. Outro dia li que a mesma questão perturbava chineses a um ponto que eles construíram a grande muralha para se ver longe dos mongóis, povo considerado bárbaro. O problema é que os povoados criados para a construção da muralha acabaram por se fundir com os povos mongóis que então invadiram a China... Os romanos tinham muito claro para eles o que eram os bárbaros, porém tanto tempo de convivência acabaram se tornar uma coisa só. Odoacro não entrou em Roma comendo carne crua e incendiando a cidade. Era um senador, de origem bárbara, que tomou o poder de Roma. A diferença é que o senador levou a insígnia ao imperador do leste e pediu para não ser mais imperador do Ocidente, mas mero rei de Roma.
A autonomia que as regiões do Império no Ocidente começaram a desenvolver acabou por levar os bizantinos a uma guerra de reconquista, para qual inventaram toda essa história de queda de Roma. Uma das propagandas políticas mais bem sucedidas na história da humanidade.
(CONTINUA ABAIXO)
Escrito por REVÓLVER NA MÃO DO MACACO às 10h49
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1600 anos depois...
A civilização burguesa tem como característica tomar por unidade básica uma coisa inventada no século XVIII chamada individuo. A necessidade de desfazer os laços milenares que uniam camponeses em torno de uma vida comunal foi de extrema importância para a implementação do mercado de mão-de-obra, o famoso e repetido nas escolas trabalho livre. A mão-de-obra, para se constituir como mercadoria, exige a fragmentação social e conseqüente atomização dos indivíduos, que vão se constituir em unidades econômicas.
A dissociação entre política e economia, outra característica ideológica de nossa civilização, irá criar um outro aspecto do individuo que, como já dito, ideologicamente aparece separado: o individuo político. Não foi fácil a conquista desta outra face, afinal todos nós conhecemos as lutas por melhorias políticas e econômicas das classes trabalhadoras durante o século XIX.
Em muitos momentos do século XX, essa dualidade nos serve de maneira esclarecedora. O fascismo pode ser visto por ela. As pessoas trocam seu sujeito político por uma suposta “plena” realização econômica como sujeitos. É essa uma das causas da perda de autonomia política de várias classes no fascismo. Essa troca, vale ressaltar, não é sempre voluntária, alias, é característico ela ser acompanhada de extrema violência.
Nessa linha de raciocínio, comecei a pensar sobre nossa querida terra. E mais ainda, pensando na possibilidade de transformação de nossa sociedade. A grande verdade é que 99% da população brasileira abriu mão (ou digamos, mais precisamente, “abriam a sua mão”) de sua realização como sujeitos políticos: um sistema eleitoral com partidos multimilionários, repressão ferrenha a qualquer tipo de organização de caráter contestador e mesmo setores médios que, sendo bonzinho, preferiram não pensar mais ou menos desde 1964. A coisa é feia, né? Pois bem... Pensando nos termos da revolução leninista ou mesmo trotskysta, a revolução dos trabalhadores, me veio a cabeça uma coisa. 80% ou mais da população brasileira nem chega a se realizar como sujeitos econômicos; não tem renda, se alimentam mal e, pior, no mundo dos fetiches e da inutilidade, não chegam nem aos pés do padrão de existência econômica que nós é exigido dia a dia pela indústria, televisão e jornais.
A não realização do sujeito econômico é a pior situação pensável em nossa sociedade: lógico que ficamos abalados e deprimidos quando o Serra ganha, ou quando vemos as cenas horripilantes que nossa curiosa sociedade nos proporciona dia a dia. Mas, como muitos aqui já ficamos sem trabalhar e sem dinheiro, sabemos como isso pega, dói, destrói e imobiliza. Essa não realização, é lógico, levam muitos a perceber a falsa dualidade entre economia e política e, como conseqüência, a luta política. Fosse isso automático, já teríamos vivido nossa revolução. A coisa fica mais feia ainda.
A busca pela simples realização econômica, principalmente em uma sociedade como a nossa onde o canal político é inexistente, levam aos comportamentos mais brutais. Além do que, a forma encontrada para se organizar e passar a existir como sujeito (de algum jeito) vai beber exatamente na lógica que move nossa sociedade. Meio confuso isso na minha cabeça, uso uma analogia para tentar me explicar. Vocês conhecem o Jack Welch? Ex-executivo da Black and Decker, ficou famoso no mundo empresarial por tirar essa gigante empresa do buraco. Símbolo de eficiência e empreendedorismo, ele cobra fortunas para ministrar palestras, muitas delas para nossos queridos empresários. Na linha do que eu penso, na busca desesperada dos sujeitos para se realizarem economicamente, me vem na mente o Marcola, o nosso Jack Welch. É muito mais fácil estudar em Harvard, Yale e tirar uma das maiores empresas do mundo do buraco do que criar uma rede criminosa milionária sendo batedor de carteira, filho de imigrantes bolivianos do baixo Glicério. Marcola é um empreendedor, um grande empresário. E através da sua empresa, ele estende a mão a todos aqueles que, dentro do “jogo limpo” de nossa sociedade, não conseguem se realizar economicamente, quem dirá politicamente.
Voltando ao leninismo e ao trostkysmo... Muitos falam da revolução dos trabalhadores, do poder do operariado, mas não realizam que, a revolução não será feita por metalúrgicos do ABC ou quem sabe funcionários da construção civil, mas sim por pessoas que jogam futebol com a cabeça de decapitados ou põe fogo em ônibus com crianças dentro. A soma da não realização dos sujeitos econômicos e a atomização do individuo nos levou o pior cenário possível de barbárie. Brutaliza criança, mulheres e idosos. Acabou com os laços de coesão social e mesmo com a identidade de classe, tão importante e necessária para a emancipação dos explorados.
Eu acho que a gente fodeu com tudo.
Escrito por REVÓLVER NA MÃO DO MACACO às 10h41
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Tucano Bandeirante

[paulo,emilio]
Em nossa batalha cotidiana contra o pensamento dominante acabamos tendo rompantes de revolta com o entorno imediato. A ojeriza à sanha tucana pelo restabelecimento de uma normalidade no cenário político, por uma volta integral do poder às mãos de quem o merece, por vezes me leva a maldizer esta estranha metrópole bandeirante. Como que ignorando a histórica correlação entre as forças econômicas e correntes políticas dominantes, nos pegamos a estranhar como pode um povo ser tão reacionário. A confusão entre o tucanismo e o paulistanismo mais que natural, é óbvia. Como no caso do crescimento das forças trabalhistas em São Paulo, e seus resultados políticos, a elite paulistana também teria de desembocar em uma força que ultrapassasse o caricato padrão do político-paulistano-industrial de expressão nacional, que deu filhotes monstros como Jânio e Maluf.
Ora, se a confusão não fosse menor, as poucas lideranças tucanas fora dos limites paulistanos além de serem forças regionais sem sotaque (literalmente), têm em comum, além de canais de TV, jornais e rádios, boa parte de seu capital paulistano. Não custa lembrar que o primeiro e mais elitista dos shoppings paulistanos é do grupo Jereissati. Enfim, não é de se estranhar que o alardeado Dia da Vaia, em que pese ampla divulgação nos dias anteriores, reuniu em SP o incrível contingente de 2.000 cidadãos de bem. Em 5 das 11 cidades programadas ela simplesmente não aconteceu, e nas demais reuniu em torno de 100 cidadãos de bem. Outros exemplos me vêem ao cabeção diariamente, não custa lembrar o de ontem: após 2 dias da cidade completamente parada com a greve do metrô, temos nos 2 grandes jornais capas exemplares. Enquanto o Estado estampa que após decisão judicial pelo fim da greve, o governador anuncia demissões (explicitando simpatia orgástica pela determinação patronal de nosso gerente de plantão), a Folha divide sua capa ao meio na vertical; do lado direito mais um episódio do causaéreo, do lado esquerdo.... aquela famigerada orelha publicitária, que revolucionou o geo-capismo, trazendo as imperdíveis ofertas das Lojas Marabrás para o dia dos pais. Para os seus 300.000 leitores, após conferir os lançamentos de celulares com mp3, resta se livrar daquela merda para ver que, sim, esse jornal que lutou contra a ditadura e pelas Diretas, estampava em sua capa repercussão do caussubterrâneo.
***
Passadas as considerações iniciais, caio de volta na luta do cotidiano. Pois foi ele que me despertou nesta manhã cinzenta pensamentos de tal magnitude intelectual.
Apesar da odiosa chacrinha das 12 h, com trombetas entoando Salve o Corinthians, minha rua tinha em hordas de paulistanos felizes comprando quadros, telas e tintas para a ocupação de seu dia e meio de folga (esse erro que indolentes brasileiros do norte incrustaram em nossa semana de honroso trabalho) um movimento que compensava bem a uréia fermentada da noite anterior, fruto de muito trabalho, suor e similares da rapaziada.
Apesar de caminhar resmungando, maldizendo a necessidade de se usar bermuda branca e sapato sem meia aos domingos, só aos domingos, confesso que a aparência atual de minha rua aos domingos é mais deprimente. Explico. Aconteceu há umas 3 semanas: acordo e vejo a rua deserta. O zelador, seu Caetano, rapidamente me explica a situação: os comerciantes de molduras se reuniram em abaixo-assinado e solicitaram a rapa. Num golpe de mestres se livraram das centenas de vendedores de todo tipo de acessórios de pinturas (menos de molduras, comércio que exige espaço e tempo, atributos incompatíveis com o comércio ambulante). Na minha cabeça, e na do Caetano também, é difícil de entender no que a atividade dos ambulantes prejudicava os lojistas. Muito pelo contrário, a sua existência era a única razão daquelas lojas estarem vendendo aos domingos. O cenário atual é desolador. Os ambulantes não precisaram mais do que uma arrojada estratégia de marketing para reduzir seu prejuízo: dois rapazes com uma faixa, revezando-se entre 2 cruzamentos e mais uns 3 distribuindo panfletos para os assustados compradores anunciavam que a prefeitura tucana os havia destinado um gueto junto a terminal de ônibus não muito distante dali. Assim espalhou-se a nova localização da feirinha, acabando de vez com o resto de movimento que alegrava os lojistas.Assim progride o tucanismo aplicado ao cotidiano, assim resiste a ralé.
Escrito por REVÓLVER NA MÃO DO MACACO às 10h18
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