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BOLEI! (I)
[zeca ferreira]

Vai começar a Flip. Isso significa que nas próximas semanas os cadernos culturais dos nossos jornais não falarão de outra coisa que as novas sensações da literatura internacional passeando pelas ruas acolhedoras de Paraty e enchendo a cara de caipirinha.
Para quem não sabe (alguém não sabe?) a Flip é uma recente e mais sofisticada versão da tradicional feira do livro criada por uma simpática senhora inglesa que detém a fama de ter revelado para o mundo o bruxinho Harry Potter. Durante alguns dias a aprazível cidadezinha fluminense será novamente tomada pela literatura mundial, com a presença de escritores, editores, celebridades, culturetes em geral, além daqueles caras que nos pegam na saída do cinema com a indefectível pergunta: “gostas de poesia?” E ao longo das semanas seguintes, os livros imperdíveis dessas novas sensações da literatura passearão pelas mãos dos nossos letrados freqüentadores de cafés, dividindo a atenção com o último filme argentino. Mas logo tudo passa, os livros correm para os sebos mais próximos e as novas sensações desbotam.
Depois do sucesso da primeira edição, alguns críticos cismaram com o tamanho da cidade – Paraty não suportaria tamanha badalação. Bobagem, a Flip, como de resto a nossa literatura, é mesmo, por definição, para poucos. Os invejosos? Deixem que falem sozinhos. Se falarem muito alto, dê-lhes um par de convites vips que eles logo sossegam. De resto, haverá sempre as feiras do livro convencionais, com seus estacionamentos quilométricos, seus estudantes barulhentos e suas promoções para o deleite da massa.
Dizem que na literatura não há como medir de imediato a qualidade (ou o prazo de validade) de um autor ou geração. O tempo é implacável com os maus escritores, tirando-os dos salões refrigerados das livrarias bacanas e jogando-os, literalmente, às traças das estantes mais esquecidas dos sebos ou às feiras do livro no interior de São Paulo. E para a picaretagem literária, como para toda a picaretagem, tempo é dinheiro, e o tempo de uma máscara cair é o limite para fazer pingar algum.
Como estou atolado na pós-modernidade que me cerca, queira eu ou não, gasto um tempo que me poderia ser bastante útil acompanhando pelos jornais o que acontece nas festas que rolam na animada cobertura do planeta. E embora não leia a literatura que as Flips da vida propagandeiam (o dinheiro mal tem dado para o Lance nos dias seguintes às vitórias do Flu, que não são tantos assim), acompanho atento o seu desfile de talentos.
(CONTINUA...)
Escrito por REVÓLVER NA MÃO DO MACACO às 17h19
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BOLEI! (II)
(cont.)
Ano passado (ou seria retrasado?), por exemplo, as sensações da feirinha eram: uma ninfeta parisiense que gastava seus dias ociosos dormindo, transando e tomando porres homéricos; e uma figura meio homem, meio mulher, que mais parecia um Michael Jackson albino de costas (o único ângulo em que conseguiam fotografá-lo(a)), cuja história de vida misturava prostituição, incesto, drogas e mais uma porção de fofuras. Ambos escreviam uma literatura confessional, descrevendo os detalhes escabrosos de suas vidas incomuns, haviam vendido milhares de exemplares (ou seriam milhões?) de seus livros em algum país que não o nosso, além de coletar elogios em revistas que também não lemos. A imprensa nativa, ouriçada por ter tão perto gente tão importante em algum lugar que não aqui, seguia-os na tentativa de flagrar a francesinha em alguma suruba tropical ou o moço(a) em algum ângulo que não de costas. Sobrando algum tempo, ou algumas linhas, falava-se de literatura.
Um ano depois, ou seriam dois?, o que aconteceu? Da francesinha não tivemos mais notícia. O esquisitão se revelou uma farsa, era na verdade uma senhora americana de vida pacata que inventara o personagem por questões de, digamos, marketing (a palavrinha mágica de hoje).
Ainda aguardamos as novidades desse ano, mas, para não dizer que a feira não começa sem polêmica, tivemos a entrevista recente a um jornal carioca em que o escritor inglês Will Self respondeu à fatídica pergunta “o que lhe vem à cabeça quando alguém fala do Brasil?” com o seguinte achado: “transexuais derrubando florestas tropicais”.
Fui ao Google saber mais de Will Self e achei dezenas de sites e blogs onde seu nome aparecia quase sempre acompanhado de adjetivos como sarcástico ou irônico.
É isso, durante uma semana teremos a oportunidade de ir até a bela Paraty, trocar cotoveladas em busca de uma senha para ouvir debates recheados de ironias e sarcasmos e ainda desfilar com os tijolos que são a última sensação das letras dessa galáxia.
Gostas de poesia?
Escrito por REVÓLVER NA MÃO DO MACACO às 17h04
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Da arte de falar mal. 25.VI.2007
[AOTC]

I. A Europa é aqui – ou de como gastar meus cinquenta reais literários (ou meus quinze minutos de uísque ruim).
Há algum tempo (não sei se hoje ainda é o caso), quem utilizasse a BR-101 buscando algum lugar mais ao Sul, encontraria depois de Curitiba uma série de “outdoors” com a sugestiva informação de que “a Europa é aqui”, indicando-a alguns quilômetros adiante. “Aqui” quer dizer Joinville-SC. Tal campanha publicitária fez tanto sucesso que ainda nestes dias há quem jure que depois de passar pela Serra do Mar chega-se ao maciço central ou aos Alpes.
Entretanto, não se chega ao destino pretendido. Com saneamento básico presente em 15% das residências do município (talvez menos); com uma estação de tratamento de efluentes de esgoto doméstico sem licença ambiental; com 578 leitos hospitalares disponíveis ao Sistema Único de Saúde para uma população estimada de 429.604 habitantes (segundo o censo de 2001); com um transporte coletivo caro e ineficiente (um mês do metrô parisiense, sem limitação de viagem, custa € 52,50, aproximadamente R$ 145, 50, enquanto em Joinville uma passagem custa R$ 2,30, dua vezes trinta igual a R$ 138,00); com uma diferença de avaliação entre as escolas públicas e privadas girando em torno de 25% a favor das privadas, conforme a última avaliação do Enem (http://200.130.24.7/basica/enem/desempenho/resultado.php), Joinville parece não ter, sob qualquer critério, os indicadores da cidade européia que pretende ser.
Esta mitologia, que não foi inventada pelo “outdoor” mas está enraizada na auto-imagem de uma parcela da população, não resiste aos fatos, mas sobrevive soberana porque prescinde dos fatos, como qualquer mitologia. Pior para os fatos. Não é raro encontrar nos jornais locais alguma coisa “maior do mundo” em curso, acontecendo, construída, projetada ou realizada em Joinville. Aliás, este tipo de idealização patológica bem que merecia um estudo de caso do Dr. Simão Bacamarte. Nos seus momentos de euforia desvairada, Joinville toma os ares da Itaguaí machadiana.
Há sucedâneos perigosos que decorrem desta obsessão municipal. Um deles é a crença de que todos os problemas locais foram importados, e a contragosto.
Recentemente o poder público municipal decidiu que não deve haver mais comércio ambulante na cidade. No informativo de uma respeitável associação local era explicado que esta solução representava um ganho estético, isto é, fazia parte da limpeza e do embelezamento da cidade. E um dos próceres desta associação reforçava, em programa televisivo, que finalmente a cidade estava limpa.
Os ambulantes lutam para manter seu ganha-pão, mas sua luta é duríssima. Nascem da própria dinâmica das cidades – estruturalmente urbanos e pobres –, mas são rejeitados pelos que deveriam “pensar a cidade”. Contra eles, toda uma mentalidade higienista que não os considera parte da comunidade, como sugeriu um digníssimo representante do povo: “O problema é que vem muita gente de fora”. Para a mentalidade média, eles são apenas mais um dos problemas “estrangeiros” da cidade. A incapacidade de a cidade perceber-se como é impossibilita sua percepção dos outros. Pior para os outros.
Vale notar que do lado dos ambulantes há um representante do Padre Eterno. Ele sabe que os ambulantes não são os vendilhões do templo. Que sua missão é ganhar o pão com o suor do rosto. Mas igualmente sabe que é mais fácil repetir o milagre das bodas de Canaã do que operar o milagre da multiplicação dos postos de trabalho, já que o milagre do bom samaritano, por aqui, está fora de questão. Deus tenha piedade de nós.
II. Post scriptum de 24.VI.2007
Na sala VIP da Viação Catarinense (o próprio nome já é suspeito) leio em O Globo cartas, dos leitores habituais, de apoio à operação tolerância zero colocada em curso na Princesinha do Mar, nossa querida Copacabana. Entendi, embora lá não esteja dito, que esta operação significa “tirar” (note que os sentidos possíveis ao verbo são amplíssimos) os mendigos e outros personagens indesejáveis da vista dos cidadãos respeitáveis. Se esta outra população de Copa atravessará ou não o mar vermelho é difícil de saber, mas para a população que aplaude operação “cidadã”, ela já merece o bezerro de ouro.
Escrito por REVÓLVER NA MÃO DO MACACO às 11h16
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DaJônia, era pra ser só um comentário
[paulo,emilio]

Da série “AI QUE VERGONHA: OS BIZARROS DE UMA ERA”, lado a lado com Second Life, a Banheira do Gugu e o Rogério Ceni, as “compensações ambientais” são tema de debate em The Wall Street Journal Americas.
A American Eletric Power Co., maior produtora mundial de CO2, fazendo uso do artifício encontrou uma boa fórmula para pagar o mal que faz à atmosfera queimando carvão para acender Las Vegas. Enquanto não desenvolve um método inédito para enterrar o poluente – o que provavelmente causará um furúnculo a explodir no Sri Lanka – a empresa encontrou uma fórmula paliativa para se livrar de retaliações. A fórmula é simples. Um boi de 40@ (600 kg) despeja na terra diariamente 52kg de cocô (pasmem, um boi caga uma Gisele Bündchen por dia). Desses, 4,89 kg são chamados de “sólidos voláteis”. Essa incrível quantidade de matéria mal cheirosa libera diariamente na atmosfera cerca de 1 metro cúbico de metano (20 vezes mais poluente que o CO2).
Ao fim de um ano o boizinho esmerdalhou o universo com uma piscina semi-olímpica de metano, ou o equivalente a 5 toneladas de CO2. A empresa, que não tem como enrolhar todo o rebanho yankee, resolveu criar estufas de estrume com material absorvente que, queimado, liberaria CO2 em baixa quantidade. Toda essa operação cata-bosta, a ser desempenhada com auxílio do inesgotável rebanho norte-americano de mexicanos, foi engendrada pelos “especialistas” da empresa para compensar o prejuízo causado ao planeta pela emissão de 150 toneladas anuais de CO2.
Com a incrível percepção de que podemos protelar a explosão do planeta sem reduzir os lucros de nossas valorosas empresas, temos criado soluções bastante criativas. Aguardamos notícias do dragão do oriente. Parece que já estão fazendo testes para aferição do volume de matéria tóxica expelida ao final de uma baciada de Yakissoba.
Já diria BUENO, Galvão “o bicho homem é um baraaato”.
Escrito por REVÓLVER NA MÃO DO MACACO às 14h30
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O carro, o etanol e o fim do mundo (ou como parei de me alimentar e comecei a comer cana com soja e beber extrato de eucalipto).

[da Jonia]
Da cana viemos à cana voltaremos. Será que alguém nos séculos passados imaginaria que voltaríamos a ser uma grande plantação de cana? Provavelmente, esse era o projeto de muita gente que, por um tempo, foi frustrado. Assim como a escravidão.
Todos estão muito preocupados com o aquecimento global, emissão de gases, enfim, parece realmente que a gente fudeu com tudo mesmo. O problema todo é onde o problema é focado, assim como as soluções que são propostas.
Em primeiro lugar: me recuso a diminuir o tempo do meu banho. Porque eu vou ter que diminuir o consumo de água quando sabemos o volume que é usado em indústrias e irrigação da maldita cana?
Segundo lugar: eu me recuso a economizar energia. Eu, assim como minha querida vovó Dona Flora, adoro a casa iluminada e tenho o hábito de deixar o computador ligado dias seguidos baixando músicas. Me recuso a economizar energia enquanto grande parte dela e desperdiçada para mover bunda branca de paulistano idiota. O carro, objeto de 1 tonelada, usa energia para mover 1 tonelada e a bunda branca de 70 quilos.
A posição do governo é patética e suicida. Apesar de em muitas oportunidades ter defendido o governo atual, essa questão me levar a pensar sobre anular meu voto no próximo pleito. Dei desconto a tudo que achava meras mudanças paliativas, ainda acreditando que, dentro das possibilidades e conjuntura, era o melhor a ser feito. Agora, realizar uma política agrária de monocultura para a produção de álcool para carro? Nem fudendo... Sem contar a inclusão sinistra que o MST pode ter nesse programa: com todas as terras tomadas por cana, eucalipto e soja, somente os assentamentos poderão produzir alimentos. A reforma agrária a serviço da nossa destruição.
Em breve, o terceiro e último capítulo: o eucalipto.
Escrito por REVÓLVER NA MÃO DO MACACO às 19h50
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O vegetarianismo, a soja e o fim do mundo (ou como parei de me alimentar e comecei a comer cana com soja e beber extrato de eucalipto).

[da Jonia]
Vegetarianos convictos e politizados. Sim, são uma tendência inegável de manifestação política nos dias de hoje. A tortura, o mal trato com animais ou até mesmo a solidariedade frente ao chamado “irmão menor” são justificativas. Para alguns, a questão ultrapassa o moralismo e chega a se constituir como uma postura necessária a derrocada do capitalismo. E eu com isso?
Subi a avenida Rebouças pensando no assunto. Eu concordo plenamente com todos os argumentos econômicos levantados sobre a produção de carne: boi é grande, consome água demais, polui o ar e água, é cheio de hormônio e ocupam terrenos gigantescos que poderiam muito bem servir a famílias e pequenas comunidades se desenvolverem. Quanto aos argumentos morais, desista. Não tenho pena de boi, assim como o boi não tem pena de mim. Tenho, no máximo, uma leve empatia por aqueles olhinhos pretinhos perdidos olhando para o infinito ou mesmo quando escuto o seu delicioso mugido... mas mesmo assim ainda acho que boi bom, é no meu prato.
Os defensores dos animais, aqueles que tanto moralmente quanto politicamente condenam o consumo de carne, têm na soja um ótimo substituto para uma série de nutrientes que lhes faltam devido ao hábito (ou posicionamento) de não comer carne. Oras, todos nós sabemos que a soja vem substituindo outras coisas também como o cerrado e a floresta amazônica. Um contra senso, não acham?
A resposta do vegetariano moral não nos interessa porque, afinal, será sempre uma resposta moralista. O vegetariano político irá responder: a produção de soja no Brasil é destinada principalmente à alimentação de gado na Europa. Ou seja, a questão se inverte e mais uma vez somos nós, comedores de carne, responsáveis por mais essa tragédia. Ai reside o problema.
O princípio que rege a atitude política de ser vegetariano é o do boicote. Você para de consumir determinado produto ou serviço e com isso deixa de participar (ou se livra da culpa, deixando a consciência bem leve) de determinada atividade que considera indigna, nociva ou mesmo politicamente contrária a seus ideais. Portanto, o vegetariano não tem responsabilidade ou participação sobre todos aqueles aspectos nocivos que listei acima relativos a produção de carne. Mas e sobre aqueles relativos a produção de soja?
Mesmo que seja uma parte muito pequena da produção de soja a destinada ao consumo humano, é uma tremenda idiotice dissociar essa parte de toda a cadeia produtiva. Assim como o boi europeu, o vegetariano contribui para o latifúndio, a monocultura e a destruição do cerrado e da floresta amazônica. Não seria o caso de parar de comer soja também? Porque, dentro da lógica do boicote, essa seria uma atitude correta para tentar frear os malefícios da indústria da soja. Mais um dos mistérios...
Escrito por REVÓLVER NA MÃO DO MACACO às 11h42
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Karina “Valentina” Mujica comprova a teoria.

[da Jonia]
Queridos. Depois de um tempo afastado, sem paciência de comentar alguns assuntos, me chegou uma história maravilhosa. Sabe aquelas teorias da conspiração sobre pessoas de direita? Que o Edgar Hoover era baitola, que o Luis Eduardo Magalhães morreu de overdose de cocaína, que o Aécio Neves é também entusiasta do diabo ralado? Pois bem, mais uma vez, o exemplo vem do Rio da Prata.
Karina Mujica é uma bela jovem de 31 anos residente de Mar del Plata, um Guarujá elevado a décima potência. A jovem dirige uma organização chamada “Argentinos por la memória completa”. Organização de extrema direita que procura defender todos aqueles que vestiram fardas para defender a luta subversiva dos anos 70 na Argentina. Acusa o governo argentino de vingativo pelas prisões e condenações que vem realizando nos últimos tempos e chama todos aqueles que pegaram em armas para combater a ditadura mais violenta da América Latina de traidores da pátria. Além disso promove passeatas contrárias ao aborto, ao homossexualismo e pela recuperação moral da sociedade Argentina. Segue o link:
http://www.memoriacompleta.com.ar/Homes.htm
Qual não foi a surpresa quando um programa de tv adentrou um prostíbulo em Mar del Plata e descobriu uma moça chamada Valentina... Sim, Valentina é nada mais nada menos que a senhorita Karina Mujica! A defensora dos militares é uma puta. É como se a história de Hebe Camargo viesse a público ou de tantas outras.
Para quem quer se divertir:
http://www.youtube.com/watch?v=QwvXq9EkW2c&
Escrito por REVÓLVER NA MÃO DO MACACO às 11h21
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o tabaco e minhas úlceras

[paulo, emilio]
Momentos de tensão.
Tento a todo custo mudar de assunto, parar de pensar no tamanho de nossa mediocridade, nas discussões rasteiras do Seu Alberto Dines, toda a lenga-lenga em torno do fechamento da RCTV, aquele oásis de liberdade de expressão na sitiada Venezuela, nosso novo caroço anti-democrático, o câncer da América. Tento não comentar a operação Xeque-Mate, que levantou a suspeita em Ciro Gomes a respeito do simpático velhinho (Senhor Fulano de Tal) homenageado por AOTC; o roubo do relógio de George Walker ou o Jarbas Passarinho bradando por democracia, nem que para isso tenha que desqualificar Antonio Cândido usando argumentos de CARVALHO, Olavo de.
Mas o momento é de tensionamento. Me recordo de ouvir que na FFLCH um estudante teve o direito de voz cassado. Não numa assembléia específica, mas em qualquer uma; considerou-se que o figura, depois de falar muita merda, havia extrapolado esse direito, cabendo a ele a pena de perda de voz. Penso nisso a cada vez que leio a direita raivosa exigindo a volta da RCTV, exigindo liberdade de expressão. Não façam relação direta com proibição mencionada, até porque ela levaria a uma conclusão contraditória. Digo que certos elementos poderiam ter vergonha de, com a ficha mais manchada que a careca do Gorbachev, exigir qualquer coisa sobre nossos vizinhos. Aliás, falando em vizinhos, já repararam que o Uribão sumiu do noticiário? Antes a última esperança dos neoliberais 90tistas na AL, hoje escondem esse síndico do paramilitarismo institucional.
Enfim, cansado dos grandes temas que me alimentam as úlceras, comecei ontem a dissertar sobre os pequenos problemas do dia a dia. Não vale nem uma consulta no analista, mas já que taí...
***
Tudo começou com a clássica tosse. Em seguida foi, a cada acendida o escancaramento de todas as janelas deste galinheiro onde passo meus dias. Passei a me dirigir envergonhado a um canto do conjunto, junto ao banheiro, quase entrando nele, relembrando os tempos de moleque. Na semana passada, finalmente tomaram coragem. Preciso fazer um parêntese: no “meu meio”, fumar ainda pega bem. Poucos mas velhos e badalados arquitetos ainda fumam sem culpa, o que faz os seus admiradores terem uma dose de tolerância, pena ou admiração. No entanto, a tolerância é social, no dia a dia venceu o padrão. Enfim, baixaram finalmente o decreto anti-tabagista.
Não me dei ao trabalho de enumerar à legisladora tudo que me causa um mal equivalente ao câncer que ela está adquirindo ao fumar passivamente meus Marlboros. Dos seus peitos siliconados à distinção com que trata pedreiros ou clientes, da mesa de centro às flores que adornam este ridículo espaço, do salto alto às ligações para comprar assinatura anual da Sala São Paulo. Foda-se ela. Mas me peguei pensando nessas pequenas coisas que vão nos irritando, de como nos fazem mal e como a assimilação de certos absurdos devem criar cânceres tão ou mais nocivos do que minha fumaça. Por que não há a mesma intolerância com o pessoal que cata cocô de cachorro na rua? É um retrato da degeneração completa, de submissão do homem ao cachorro, mente superior domina mente inferior. E não imaginam que isso possa ser prejudicial à saúde? À minha é.
Há exemplos diários, cada um tem os seus, de convívio com atitudes altamente cancerígenas. Não vencerão essa batalha, hei de persistir com meus prazeres sobreviventes. De minha parte seguirei baforando com gosto, uma vez que a proibição do peido em público já foi assimilada. Salve meu edredom!
Escrito por REVÓLVER NA MÃO DO MACACO às 14h56
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BOLEI!
[zeca ferreira]

Juventude em marcha
Em linhas gerais, manifestações estudantis são vistas com simpatia. O ímpeto e a ousadia dos que tem o futuro pela frente nos fazem – adultos desiludidos – lembrar o tempo em que nos lançávamos sem medo aos desafios. A vitalidade da juventude nos é simpática mesmo em suas precipitações, em seu destempero, pois ainda não se rendeu à covardia e às frustrações que começam a se acumular a partir do momento em que ouvimos o primeiro “senhor” vindo em nossa direção.
Daí, portanto, a alegria estampada nas manchetes dos jornalistas que celebram as manifestações estudantis... na Venezuela.
O fechamento (síntese encontrada para a longa e desnecessária frase “não renovação da concessão”) da RCTV levou os estudantes daquele país, segundo leio, a uma série de manifestações em defesa da liberdade de expressão, sempre ela. Contra os estudantes e seu ímpeto, sua ousadia, seu destemor, brutamontes fardados, armados até os dentes.
As tais manifestações estudantis contra o fechamento da emissora – e, por tabela, contra o presidente Hugo Chavez - não estão na vitrine por acaso: elas confrontam o presidente venezuelano com o mesmo tipo de energia que deveria sustentá-lo. Ao mirar o imperialismo norte-americano e sua ingerência aqui no continente, pregando o socialismo e a autonomia, Chavez fala como o jovem estudante - ousado, impetuoso, malcriado. Acima de seus modos está a vitalidade da juventude. As marchas estudantis são o truque da vez para a tão almejada desconstrução do bonachão líder venezuelano.
Até aí tudo bem, mas fica um cheiro estranho no ar. Tracemos um paralelo: se um governo que se proclame de esquerda resolvesse caçar a concessão da nossa RCTV, plim plim, pelo motivo que fosse, como reagiriam nossos bravos estudantes? Acredito que qualquer pessoa que tenha passado pelos banco de uma universidade pública há de concordar comigo: fogos de artifício! Tudo bem, vá lá, podemos até imaginar um pequeno grupo a defender a tal liberdade de expressão – ou pelo menos que se esperasse pelo fim de Paraíso Tropical – mas certamente não faria o mesmo ruído.
É, portanto, no mínimo estranho o emaranhado de reportagens a tratar os estudantes como a grande força de vanguarda a se revoltar contra a tirania naquele país.
Enquanto isso em São Paulo...
É impressionante a comparação entre o relato de quem esteve na USP nesse último mês e aquilo que tenho lido a respeito nos jornais (e olhe que São Paulo está bem mais perto e acessível que a Venezuela).
Ao contrário dos estudantes venezuelanos, os paulistas vêm sendo tratados como jovens mimados, desinformados, lutando pela causa errada. Segundo a reportagem de um jornal carioca, os estudantes se revoltaram contra “a transparência nos gastos das universidades”. Assim mesmo. Os policiais, nesse caso, agem por obrigação de defender o patrimônio público da desordem e do vandalismo.
Dois clichês opostos, usados de acordo com o interesse do momento. Se para os jovens venezuelanos sobram admiração e incentivo, aos nossos, fica o conselho de Nelson Rodrigues: “cresçam!”
Escrito por REVÓLVER NA MÃO DO MACACO às 17h26
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