REVÓLVER NA MÃO DO MACACO


EL DIABLO (parte I)

[Ana Barreto]

Minha contribuição para o Revólver na Mão do Macaco vem um pouco atrasada, pois o acontecido é de 20 de setembro de 2006 e a história não é nada nova.  Mas espero que ainda seja interessante.

Uma pequena introdução ao assunto: em sua vinda a Nova York, Hugo Chávez visitou áreas do Bronx e Harlem, notadamente recheadas das aqui chamadas minorias de latinos e negros, e prometeu mais fornecimento de óleo para aquecimento a baixo custo.  Na mesma semana, durante a Assembléia Geral da ONU, chamou Bush de diabo e roubou as atenções da imprensa.  Na noite do mesmo dia fez um discurso na Cooper Union, universidade no East Village.  Deste vou falar com mais detalhes, pois estava lá.

O disputado convite com uma foto do Chávez e a bandeira venezuelana ao fundo foi uma amiga venezuelana quem conseguiu.  Na enorme fila de quase uma hora se espremiam jornalistas, grupos de direitos humanos, ativistas políticos e estudantes.  Alguns vestiam camisetas vermelhas, com foice e martelo ou com o rosto de Che Guevara.  Me pergunto:  onde essa gente se esconde no dia a dia?  É a primeira vez desde que vim pra Nova York que vejo tanta gente de esquerda junta.  Na entrada, detector de metais, revista, checagem de documentos, sorrisos, distribuição de tradutores simultâneos e de presentinhos:  uma camiseta com o título em vermelho “Fórum com o presidente Hugo Chávez”, um livreto explicativo da Citgo (subsidiária da Petróleos de Venezuela S.A), e duas bandeiras, uma dos EUA e outra da Venezuela.  Entenderam?  Não era um simples fórum, mas um show. Nós éramos, me desculpem o trocadilho barato mas inevitável, os macacos de auditório.

Entro no meio do discurso do cantor, ator e também ativista político Harry Belafonte que logo apresenta Chávez, o astro da noite.  Euforia.  A platéia levanta e aplaude.  No meio da gritaria é possível distinguir algumas frases em espanhol, repetidas em outros momentos do discurso: “Se vê, se sente, Chávez está presente!”, “Bush, escuta, o povo está na luta!”.  Demora um tempo para Chávez poder falar.  Cumprimenta a todos demoradamente, citando praticamente cada grupo e nacionalidade presentes e é ovacionado a cada citação.  Tem sempre algo a dizer de cada um.  Fala de um pouco de racismo, pobreza, bombardeio do Líbano por Israel, tudo entremeado com ataques ao imperialismo estadunidense e ao capitalismo.  Na platéia, de tudo um pouco: sindicalistas, grupos comunitários, venezuelanos, equatorianos, judeus ortodoxos, muçulmanos e muito mais, se pronunciam em blocos deixando bem claro quem é quem.  Não dá pra negar, Chávez é um ótimo orador, age naturalmente como se estivesse em uma sala de 10 pessoas.  Toma um cafezinho depois do outro, faz perguntas à platéia e desenvolve seu discurso usando as respostas.  Fala da sua relação com Fidel e arranca mais gritos.  Dizem que o tempo de discursos é também um ponto de identificação entre os dois.  Pelo jeito o negócio vai longe...



Escrito por REVÓLVER NA MÃO DO MACACO às 14h41
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EL DIABLO (parte II)

[cont.]

[Foto de Ali Winston]

Depois de aproximadamente meia hora de apresentações, começa o discurso oficial.  Achei que seria algo mais claro, com começo meio e fim, mas estava enganada.  Fala de vários assuntos e as conexões entre eles são as mazelas do capitalismo e as injustiças mundiais.  Fala de Abraham Lincoln e da guerra civil estadunidense.  Diz que o capitalismo é o caminho ao inferno e repete que o presidente dos EUA é o diabo.  Se defende dizendo que é mentira que ele é inimigo dos estadunidenses, pois é inimigo deste governo e de imperialismo e isso não tem nada a ver com o povo.  Cita o autor anti imperialista do século XIX Mark Twain, o líder da independência venezuelana Francisco de Miranda, Simon Bolivar, Martin Luther King e o assassinato de John F. Kennedy.  Fala demoradamente de Noam Chomsky, também citado no discurso da ONU e recomenda novamente o livro “Hegemonia ou Sobrevivência” e afirma que não é ele quem diz, mas o próprio linguista que o imperialismo estadunidense irá destruir o mundo caso os próprio povo não se levante e mude as políticas vigentes.  Ou seja, mesmo considerando que a platéia não era nada convencional, fala a língua do status quo, recheando o seu discurso com heróis e salvadores do mundo, mas recomenda que esses salvadores sejam outros... No final da noite, um pouco mais de formalidade: oferece um quadro à Cooper Union com dizeres de Abraham Lincoln e Francisco Miranda.  Foram aproximadamente duas horas ao todo.  Antes de sair, assina camisetas e tem longas conversas com aqueles que se aproximam.  Tira foto, abraça, beija e segura a mão de todos.

Na minha volta pra casa, um certo constrangimento de carregar as bandeiras e camiseta no metrô.  Encontro outros saindo do mesmo fórum e trocamos olhares cúmplices.  Converso com um equatoriano que faz doutorado aqui.  Uma curiosidade: conhece São Paulo e acha, como outros latino americanos já me disseram, parecida com Nova York.  Não vejo a ligação, vai entender... 

Nos dias seguintes, enquanto o livro do Chomsky é recorde de vendas na Amazon, os jornais locais estampam fotos de Chávez na capa falando das reações de políticos locais e população contra as ofensas a George Bush.  Frases como: “volte para a Venezuela”, “não venha para o nosso país ofender o nosso presidente” são comuns na imprensa.  Para os mais desavisados até parece unanimidade.  Me pergunto onde foi parar toda aquela gente do fórum.  Onde escrevem?  Cadê as capas dos jornais mostrando os que ovacionavam?  Obviamente não esperava que fosse diferente, mas fica aqui registrado que o que vi foi completamente o oposto...

E como não poderia faltar, alguns pedaços do discurso no youtube:

http://www.youtube.com/watch?v=MSucra0EUtA

http://www.youtube.com/watch?v=qJcBynGWPSI

 



Escrito por REVÓLVER NA MÃO DO MACACO às 14h23
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“É CADA VEZ MENOS...”

[paulo,emilio]

Acabo de ler uma matéria no Observatório da Imprensa, em que o jornalista indignado reclamava da pífia cobertura do baile colorado pela imprensa. Esse site tem, como o nome já diz, a pretensão de observar e analisar a imprensa. Quem o freqüenta sabe que há desde as eleições uma crise de identidade, além da crise que se instalou quando começaram a ser também os jornalistas observados. Mas o papo não é esse.

O rapaz se questiona sobre a pouca atenção que os grandes jornais de Rio e São Paulo deram à vitória de Abelão e seus comandados. Concordo plenamente com a indignação. No entanto, a inocência dessa gente é perturbadora. Segundo o autor é preciso que a imprensa não perca de vista o interesse público, que nem sempre coincide com o de seus diretores de redação, redatores-chefes, editores de seções etc.”

Há uma única explicação para a pífia cobertura do Mundial (ou melhor, taça Toyota). Jornal foi feito pra vender. Só isso. Não há nada de interesse público nas decisões sobre o que ou não publicar.

Não dá pra ficar procurando pêlo em ovo. Essa rapaziada do Pasquale, ou é muito avançada ou faz questão de não enxergar o óbvio. A decisão de não mostrar o triunfo do Inter é uma questão de mercado, quem compra esses jornais são, majoritariamente, paulistas e cariocas. Como as projeções que esses caras fazem pegam o público leitor médio – o que as pesquisas por eles encomendadas definem como leitor médio – as decisões sobre o que interessa publicar acaba se restringindo ao São Paulo, ao Palmeiras e ao Corinthians aqui (e Flamengo, Vasco, Flu e Botafogo no Rio). Simples assim. Não é falta de sensibilidade da editoria, mas excesso. É tudo baseado em pesquisa, e infelizmente a galera ta se lixando pro que acontece no futebol gaúcho.

Há obviamente a pauperização dessas redações – o ‘enxugamento da máquina’ – cada vez mais comprando matéria e dispensando sucursais. Mas é a mesma coisa, em resumo, jornal foi feito pra vender.

***

Se não me arrepender de ficar dando trela pra jornalista e mandar mesmo essa joça aí de cima, deixo a segunda bronca aqui.

Ganhei o livro do Peréio.

Ou melhor, o livro que a Pink Wainer fez sobre o Peréio. A Pink Wainer tem uma loja de “cacarecos” em SP. Deus me livre. O livro do Perério não tem nada a ver com o Peréio. É um livro de ‘cacarecos do Peréio’. Alguém me disse que parece o livro de fotos da Marizeth. Verdade.

Mas enfim, se apertar sai umas 3 páginas de Peréio, e é bem bom.



Escrito por REVÓLVER NA MÃO DO MACACO às 10h44
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B O L E I !

[Zeca Ferreira]

 

“Karina Bacchi e o baixinho da Kaiser, juntos!”

Dou aquela tradicional paradinha na banca de jornal a caminho da padaria e me deparo com a notícia. A foto, um pouco desfocada, comprova: o baixinho, na ponta dos pés, tasca um beijo na Bacchi. A mãe de Karina, dizia o subtítulo, apóia a relação. Ao meu lado, uns dois camaradas a caminho do trabalho se entreolham. “Tsc, tsc”, diz o primeiro. “Tsc, tsc”, responde o segundo.

(*nota talvez desnecessária: Karina Bacchi é atriz, apesar de ser mais conhecida por seus atributos físicos..., digamos assim, generosos. Consta que escreveu também alguns livros infantis. O baixinho da Kaiser é um personagem criado por essa marca de cerveja ao se lançar no mercado, muitos anos atrás. Além do meu saudoso avô Homero, não conheço ninguém que goste dessa cerveja. Na verdade, com o passar do tempo, Kaiser se tornou praticamente um sinônimo para cerveja de má qualidade.)

Mais tarde, ouvi de meu amigo Gustavo, estudioso da cultura de massa, a explicação: tudo não passava de um golpe de marketing da Kaiser, empenhada em campanha para anunciar uma nova fórmula. Respirei fundo. Um golpe de marketing, hoje em dia podemos desconfiar que tudo seja um golpe de marketing. Brigas públicas, romances improváveis, comemorações de gol, crimes, tudo pode estar a serviço de algum produto oculto.

Passam-se algumas semanas e mais Karina Bacchi: agora está confirmado, a veremos como veio ao mundo na edição de natal da Playboy. Vivendo a expectativa, somos brindados com uma seqüência de notas nos jornais, com mais Karina:

 

“Karina Bacchi possui um piercing em lugar secreto”.

 

“Pessoas que estiveram lá garantem: Karina Bacchi tira o piercing na hora H” (Por “pessoas que estiveram lá”, certamente não posso mais contar com o baixinho).

 

 “O piercing de Karina Bacchi será leiloado, lance inicial é de 50.000 reais”.

 

“O dinheiro obtido no leilão do piercing será revertido para a ong Florescer, mantida por KB”.

 

Já estava com esse texto pronto, mas acabo de ler mais uma: “Após o piercing genital, Karina Bacchi vai leiloar pantera de pelúcia”.

 

Do baixinho da Kaiser, as notícias são mais escassas, mas dizem que ele também já recebeu proposta para pousar nu.

 

(continua ...)

 



Escrito por REVÓLVER NA MÃO DO MACACO às 20h27
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B O L E I ! (cont.)

“Karina Bacchi e o baixinho da Kaiser, juntos!” (II)

Os golpes de marketing se tornaram uma constante. O sentido da palavra golpe é adocicado, e se refere agora a um lance esperto, uma forma espirituosa de colocar um produto na praça. Primeiro caímos na cilada, acreditamos na peça; depois percebemos se tratar do golpe, mas é tarde demais, muitos de nós já trocaram seu dinheiro pelo produto vendido. (só pra esclarecer: não passei a beber Kaiser ao identificar no baixinho um cara “normal”, assim, tipo eu, se dando bem. Na verdade, eu já conhecia o produto e nem as promessas de nova fórmula, novo sabor, me convenceriam a uma nova tentativa. Deixei a Karina Bacchi pro baixinho).

 

É comum vermos nos programas e desenhos animados para crianças pequenas um momento onde se explica que aquilo ali não existe de fato, faz parte da imaginação dos guris. Por exemplo: no final dos programas do abobado dinossauro Barney (na verdade um adulto fantasiado com uma roupa extra-quente roxa, cercado de crianças obedientes das mais diversas etnias do planeta), vemos a imagem do personagem, mas agora na forma de um boneco de pelúcia. Ou seja, o Barney de verdade é um boneco; todo o resto (as brincadeiras, as músicas idiotas, os outros dinossauros amigos dele) é criado pela nossa imaginação. Isso certamente tem uma explicação pedagógica, algum tipo de incentivo para a criança usar a criatividade, mas sem ficar esquizofrênica.

No mundo dos adultos, é de se supor que tal artifício não seja necessário, afinal, temos  recursos suficientes para diferenciarmos o que é real do que é ficção.

A não ser que queiram nos vender algo – uma cerveja ruim, uma revista de mulher pelada ou, quem sabe, uma Karina Bacchi.



Escrito por REVÓLVER NA MÃO DO MACACO às 20h25
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Da arte de falar mal 16.XII.2006

Uma nota, qualquer nota.

Sobre a “democratização dos meios de comunicação” (não deveria haver antes a democratização dos meios de produção) parece haver duas posições correntes: uma marcadamente cética outra que crê na possibilidade de pequenos avanços institucionais que, depois de certo tempo, tornariam possível uma mudança senão radical  pelo menos relevante na situação atual dos meios de comunicação. Situação que resumo da seguinte forma: do ponto de vista da legislação não há regulação mais estrita, salvo, talvez, no que diz respeito à concentração de meios. O controle é do estado, o uso é concedido via congresso nacional e devendo ser renovado periodicamente. Do ponto de vista do fato, não há setor com maior desenvoltura para fazer valer sues interesses, por definição, privados. A impressão que se tem é que não haveria situação mais propícia para a ação da tal “vontade política”, não sendo preciso sequer criar uma lei, apenas aplicar rigorosamente a que existe.

Não é isto que ocorre. Porque o amálgama entre poder e meios de comunicação é tão complexo e bem tramado no Brasil que hoje não há governo que sobreviva sem alguma concessão. Não me parece fora de propósito que o tema “realismo versus realidade” tenha espontaneamente convergido para o da “democratização dos meios de comunicação”. No Brasil, sobretudo a TV, é uma instância de verdade e de poder, cuja crítica possível tem de ser feito “de fora” tal a hegemonia que ela exerce.  

Um modelo de mudança neste estado de coisas que acredito ser possível – salvo se se estabelecer uma situação de real ruptura institucional que não parece ser o caso – é se tentar realizar, a partir da plataforma disponível da Radiobrás e da TVE, o modelo da BBC. Um complexo de mídia autônomo e financiado pelo poder público cuja programação não obedeça a dispositivos de mercado e não seja auto-referente. Com a Globo ninguém mexe. Para enfrentar o monstro é preciso criar outro.

 

AOTC



Escrito por REVÓLVER NA MÃO DO MACACO às 17h22
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Eu tenho medo!

[o emilio]

 

“Eu tenho medo!”. DUARTE, Regina. Rio de Janeiro, Organizações Globo, 2002.

 

Os confrades já repararam que artista não tem movimento? Há movimento de tudo quanto é profissional, cada classe com seus problemas, mas há sempre os sindicatos, as associações de classe, institutos, etc. Há politicagem em todos e é assim que a coisa anda, ou não.

Na minha área de atuação posso dar exemplos, o sindicato antigamente dominado por arquitetos da “esquerda”, foi abandonado pelo grupo dos ‘profissionais liberais’, que se vendem por qualquer ninharia e não se arriscam a colocar o patrão no pau. Pois bem, os sindicatos continuam aglutinando gente “de esquerda” (na Folha usam aspas), mas diminuiu enormemente, atualmente abrigando majoritariamente os funcionários públicos, “de esquerda”, que têm ainda a contribuição recolhida no contracheque. Há diversas outras frentes de luta. O Instituto dos Arquitetos é a aglutinação dos “ArquitetosArquitetos”, hoje “de direita”, têm saudades do milagre econômico, época em que podiam se dizer de esquerda e ainda faturar um troco, e a Associação dos Escritórios de Arquitetura aglutina os “bem à direita”. Tirando o campo estritamente arquitetônico, somos tb urbanistas, e assim há mais uma série de agremiações das quais fazemos (ou temos a opção de fazer) parte.

Pois para levar adiante quaisquer reivindicações, temos que fazer parte de um grupo. Para lutar pela aprovação de qualquer lei (seja pra nos livrar do Conselhão Nacional dos Engenheiros ou pra alterar o status da regulamentação profissional), ou para participar dos Conselhos Nacionais ou qualquer outro fórum baseado em ‘representação’, temos que nos candidatar como representantes de agremiações de âmbito nacional, ou não temos voz.

 

Até aí nada de novo, o mesmo acontece na saúde, na educação, etc. A questão que eu coloco é a seguinte, e sei que é bem rasa, mas vamos lá.

 

Se para reivindicar qualquer coisa eu devo me agregar aos meus e fazer política com as instituições que estão aí, a não ser que eu prefira partir pra porrada, por que artistas não fazem a mesma coisa? Por que quando há uma pendenga, como essa envolvendo as verbas da Lei Rouanet, aparece o nome de cada artista presente, como integrantes da “classe artística”. Representantes de quem?

Não acho que seja um problema em si o Ney Latorraca ou a Fernanda Montenegro baixarem no Congresso pra fazer lobby, mas quem eles representam ao irem discutir as verbas de isenção fiscal a serem distribuídas pelo MinC? É direito de cada um ir ao congresso pedir a aprovação de qualquer coisa – imagino que deve ser mais difícil para alguns – mas a institucionalidade que se dá a essa representação da classe artística é esquisita.

 

A provocação não deve ser levada ao extremo. É claro que há as entidades da classe. E é aí que está a graça do negócio. Quando as damas do nosso teatro estão a ponto de terem que dividir o seu bolo com os meninos da Mangueira (que na verdade vai acabar indo pro Nuzman e pro bando de caçadores que há de surgir a partir dessa nova modalidade de Bolsa ‘Família Barreto’), quem aparece para lutar pelos direitos dos artistas? A Bia Falcão, o Barbosa.

Se eu fosse um pouco mais erudito juro que atribuiria o fenômeno a características de nossa sociedade, ao personalismo no trato da coisa pública, à cultura do favor, ao patrimonialismo, ao culto à personalidade.

Mas como sou mesmo é noveleiro prefiro acreditar que eles vão a Brasília porque a Globo paga bem, ou porque sobrou umas milhas da última temporada no Cultura Artística, e eles podem fazer esse favor ao pessoal do Teatro do Oprimido.

 

 

Hoje o tema me foi dado por Tio Bonifácio, que assina O Globo e estava muito puto com o papelão das Damas do nosso Teatro.

 



Escrito por REVÓLVER NA MÃO DO MACACO às 10h26
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Barata leprosa com caspa na sombrancelha (1)

[Andre Carrasco]

 

1.

Sexta feira á noite.

Antes de dormir, termino um livro que estava lendo há algumas semanas. Chama-se Diário de la Guerra del Cerdo, do Adolfo Bioy Casares. O livro conta a história de uma guerra travada em Buenos Aires, uma guerra declarada pelos jovens, contra os velhos. Os personagens principais são alguns velhinhos, todos amigos, que se vêem no meio do fogo cruzado. Alguns são imobilizados pelo medo, outros tentam reagir, dois deles morrem linchados.

O texto deixa evidente quem são os mocinhos e quem são os bandidos. Os jovens não passam de bárbaros assassinos, e os velhos, pobres homens indefesos. Mesmo assim o livro é interessante, até porque em um determinado momento um dos velhinhos se apaixona por uma moça e dessa paixão começam a pipocar conflitos muito mais interessantes do que a própria guerra. Mas confesso que terminei a ultima página do livro pensando : “coitados”.

 

Sábado de manhã.

No dia seguinte, saio de casa para tentar aproveitar o dia. Um sábado muito bonito, diga-se de passagem. Sol, clima ameno e no ar aquela boa vontade coletiva de fazer as coisas irem bem. Subo a minha rua rumo ao ponto de ônibus. Dobro a esquina, sigo pela calçada e me deparo com uma cena que me chama a atenção. Na verdade, a cena toma toda a minha atenção. Sou obrigado a parar e não consigo parar de prestar atenção.

Duas pessoas discutem. Um velho e um rapaz de seus 15 anos. O garoto empurrava uma bicicleta pela calçada, com todo o cuidado (eu vi) para não atrapalhar os transeuntes. O velho reclamava com ele por isso, que calçada não era lugar de bicicleta, essas coisas. Mas havia um porém. O velho estava azul. E começou a engrossar. O garoto dizia que tudo bem, já estava saindo, mas o velho nem aí, querendo confusão. De repente, o esperado. O velho começa a bater no moleque. Mas bater pra valer e com vontade. De início foram uns três socos na cara, todos muito rápidos. O moleque recuou, assustado. O velho continuou avançando sobre o garoto, que desequilibrado pela bicicleta, não conseguia concatenar suas ações. Mas após alguns instantes, ele consegui se equilibrar e foi pra cima do velho, derrubando-o no chão. Com o velho no chão, o garoto conseguiu devolver alguns chutes, mas logo foi impedido pela famosa turma do deixa disso (que até então, enquanto o velho levava a melhor, somente observava o entrevero).

Mas além de impedido, ele foi imediatamente julgado e condenado. Onde já se viu, bater no vovô?

Era evidente que o menino tinha razão. Ele vinha na boa até o momento em que um velho cachaceiro apareceu pra estragar o seu sábado. O velho estragou o meu sábado, imagine o do menino.

Mas ele foi condenado apenas por uma razão: era novo, e o outro, era velho.

Depois que todos foram embora, retomei o meu caminho e na hora veio a lembrança do livro que eu acabara de ler no dia anterior. Confesso que entrei no meu ônibus pensando: “que se fodam”.

 

[continua...]



Escrito por REVÓLVER NA MÃO DO MACACO às 16h03
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Barata leprosa com caspa na sombrancelha (2)

2.

Continuando no tema, mas mudando um pouco de assunto...

O presidente disse que ser de esquerda ou é coisa de adolescente porra louca ou de velho gagá. Que a maturidade nos leva para o centro.

Antes que eu me esqueça, não foi o presidente FHC que disse isso. Foi o Lula mesmo, como todos devem estar sabendo.

Sabe, eu não me impressiono muito com isso. Essa postura vinha sendo evidente. Até aí tudo bem. Mas... precisava falar? E precisava falar logo agora, ainda no rescaldo das últimas eleições, quando seus cabos eleitorais, e o próprio presidente, se esforçaram para se apresentar, apesar dos ultimo quatro anos, como dignos representantes da esquerda, como aqueles que barrariam o avanço a direita alckimista?

E precisava falar isso numa premiação da Isto É (lembram do golpismo da imprensa?), para uma platéia repleta de importantes personalidades da nossa elite, ou em português claro, repleta de filhos da puta?

Não precisava não.

 

3.

Por falar nisso...

Ainda sobre a tal democratização da mídia.

Sinceramente, alguém acredita que a criação de uma Secretaria para a Democratização da Informação pode contribuir com alguma coisa para a democratização da informação?

Caros amigos, como todos sabemos, quem está criando essa secretaria (o Estado Brasileiro) é a mesma instituição responsável por liberar e gerenciar as concessões ligadas às telecomunicações. Então, não seria mais fácil liberar concessões de rádio e tv para grupos minoritários e apertar as regras para os grandes grupos? Isso é democratizar a informação e não seria necessária nenhuma secretaria nova pra isso.

O que eu quero dizer com isso é que um projeto de democratização da informação (nem falo de mídia, porque isso nem deveria existir) não pode, de jeito nenhum, ser pautado pelo Estado. Porque o papel dessa instituição é justamente deixar as coisas exatamente nos seus lugares.

 

Só pra constar. A concessão da RBS (Rede Brasil Sul, a Globo da região sul) se encerra dia 5 de outubro de 2007. Seria uma boa hora para o governo mostrar, de verdade, seu empenho no sentido da democratização da informação. Mas sabem porque eu acho isso pouco provável? Porque a Rádio Farroupilha e a Rede Atlândida (grupo RBS) estão com suas concessões vencidas há tempos sabem o que a Anatel e PF fizeram? Nada.

Vocês acham que tem secretaria que dê jeito nisso?



Escrito por REVÓLVER NA MÃO DO MACACO às 15h59
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[Zeca Ferreira]

Tem macaco querendo botar a mão no revólver

Depois da redemocratização a liberdade se tornou o produto mais importante da mercearia, e é anunciado com pompas por todos os lugares pra onde olhamos. Alguns dos nossos são vistos (ou se vêem) como defensores incondicionais dessa liberdade. No topo da lista, a imprensa, que, investigando e, principalmente, editando as notícias, não poupa letras garrafais sempre que percebe algum tipo de proposta que visa (no seu entender, claro) sumprimir liberdades.

O mais recente alvo da nossa imprensa livre (sempre alerta) é o atual presidente do PT, e organizador da bem sucedida campanha presidencial vencedora no 2o turno, Marco Aurélio Garcia. Acho difícil pra qualquer um que acompanhe minimamente os nossos jornais desconhecer a frase recente: “cuidem vcs das suas redações e deixem que nós cuidamos do PT”, ou qualquer coisa nesse sentido. Foi entendida (e amplamente divulgada) como ameaça à liberdade de imprensa no país, como um pequeno aperitivo do ranço autoritário que o partido carrega, segundo esses nossos homens das notícias, e que pode aflorar a qualquer momento.

Ao dar uma série de declarações criticando o procedimento de certos órgãos de imprensa durante e após as eleições, foi logo visto como porta voz de tendências autoritárias que pretenderiam submeter a mídia aos interesses do governo. Da mesma forma, algumas propostas dos quatro anos que se passaram foram bombardeadas sob o mesmo pretexto, a criação do Conselho Nacional de Jornalismo e a transformação da Ancine em Ancinav são os exemplos óbvios.

É um ponto de vista, defendido por muitos dos donos de tv e jornais do país (nem todos com histórico de defensores de liberdades).

 

Fui encontrar dia desses uma notícia antiga, mas que me deixou de cabelo em pé. Uma declaração pública do senador Antonio Carlos Magalhães, da tribuna do senado, de quando houve aquela invasão da câmera por membros do MLST (também conhecidos em nossa imprensa como petistas). Reproduzo textualmente as palavras do senador: “Reajam, comandantes militares, reajam enquanto é tempo, antes que o Brasil caia na desgraça de uma ditadura sindical presidida pelo homem mais corrupto que já chegou à Presidência da República”. (para ver a cena, youtube na veia: http://youtube.com/watch?v=5XbdmHkvv2A)

 

A mensagem é clara, não precisa de pontos de vista ou interpretações: um senador da república subiu à tribuna e conclamou comandantes militares a um novo golpe de estado. O pretexto é o mesmo de sempre, no Chile ou no Brasil, combater a anarquia e a subversão. Indecoroso, mas sem muito alarde. Nossos vigilantes repórteres estavam mais preocupados com as ligações entre o líder do quebra-quebra e o partido do governo.

 

***

Pra piorar

Curiosa a forma como foi noticiada a morte do general Pinochet em nossa imprensa livre, uma cobertura recheada de mas, poréns, todavias. Na cobertura da Globo, após palavras de censura ao meios empregados, elogios aos fins: a abertura econômica do Chile ao neoliberalismo, modernizando o estado e tornando o país um modêlo na AL. Credo. A coisa foi tão grave que até a Miriam Leitão pediu calma.

***

Tasso Jereissati no Roda Viva, segunda-feira: depois de comentar o “apagão aéreo”, pediu licença aos sociólogos do partido para uma análise de próprio punho: até no trânsito é possível perceber a degeneração. As pessoas cometem suas pequenas ilegalidades a torto e a direito, pois “já que o presidente rouba, por que não eu?”

Ó a anarquia aí.

Estarei eu ficando paranóico?

 



Escrito por REVÓLVER NA MÃO DO MACACO às 12h26
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Certo não está, né mano? E os inocentes, quem os trará de volta?

[Da Jonia]

É com muito prazer que todos andam a festejar a inauguração da Nova Oscar Freire. Novo calçamento, nova iluminação... Um boulevard. O que raios é um boulevard? Sempre que vejo as propostas de se recuperar áreas degradadas (leia-se em São Paulo expulsar pobres), sempre aparece a porcaria do boulevard. É o curinga, o grande trunfo da arquitetura do caipirismo-cosmopolita-jardiniano. O anúncio da acessória de imprensa dos lojistas: “poeira, marteladas e barulho acabaram. No lugar dos operários, homens e mulheres bem vestidos e com a aparência favorecida em todos os aspectos, voltam a circular pelas calçadas da rua Oscar Freire".

 

O ódio a pobres, principalmente em São Paulo, é algo conhecido por todos. Que nossa classe média, apesar de apoiar o PSDB, tem uma queda pelo nacional socialismo todos sabemos. Mas, talvez por inocência, nunca deixa de me chocar essas manifestações cada vez mais presentes em nosso dia a dia. Penso no coronelismo nordestino: um instrumento de dominação perverso? Sim. Mas olha o que a maravilhosa modernização de nossas elites criou... É a modernidade reacionária. Fico abismado como conseguem digerir os mais altos conceitos de boa vivência, passando longe dos valores modernizantes do iluminismo. Na verdade, essa idéia eu extraí do livro de Jeffrey Herf “O Modernismo Reacionário – Tecnologia, cultura e política em Weimar e no Terceiro Reich”. O autor, apesar de weberiano, trás uma série de reflexões muito interessantes. A linha mestra do livro é justamente mostrar como, através de inúmeras cambalhotas, o nacional-socialismo conseguiu casar a técnica capitalista ao sentimento anti-modernizante da sociedade alemã.

 

Sempre vale lembrar o nosso eterno paradoxo: arcaico e moderno. Arcaico, esse povo sujo; moderno, a Oscar Freire; arcaico, Antonio Carlos Magalhães; moderno, Fernando Henrique Cardoso e toda sua corja.

O que é interessante desse nosso paradoxo, assim como no paradoxo alemão é que, essas duas realidades, tratadas por muitos como conflitantes, são inseparáveis e totalmente necessárias. Toda nossa modernização, todo nosso orgulho ao ver lojas como a Dior em nossa cidade; toda a hora que enchemos a boca para falar “boulevard”, tudo isso só pode ocorrer pelo “arcaísmo” em que vive grande parte de nossa população. Resta saber se, como na Alemanha, adotaremos a solução final para aqueles que não devem ser contemplados pela nossa modernidade, ou no caso específico de São Paulo, por nosso bom gosto e refinamento. Eu prefiro achar que chegou o momento de nós mostramos a fatura em sangue de quanto custa o caipirismo-cosmopolita-jardiniano.

 



Escrito por REVÓLVER NA MÃO DO MACACO às 10h53
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Chuta de bico que o jogo é à taça!

[Menino do Rio]

Eu trabalho na Globo, tá legal?!

 

Saindo do baixo Gávea pela orla em direção ao Centro, sem escala no Leblon, o que te livra de topar com o João Ubaldo tomando água mineral em algum boteco, você pode parar no Leme pra tomar um chopp dominical. Foi o que aconteceu comigo anteontem. Os cerca de 40 minutos que permaneci no bar Leme Light nessa tarde feia de domingo forneceram uma dose generosa de material para um bom côco na morsa. Nesse espaço de tempo, um sujeito, dizendo qualquer coisa sobre um serviço que iria fazer, me pediu um cigarro. Do outro lado do calçadão, sob uma marquise, um grupo de mendigos desfruta os saquinhos de batata palha que sobraram da festa dada pelo meu cunhado na véspera. O banquete depois foi reforçado pela quentinha oferecida por um casal de jovens que estava numa mesa ao lado da nossa. Outro sujeito chega com uma caixinha pedindo moedas (R$ 1,00, depois R$ 0,50 ou mesmo R$ 0,10, qualquer coisa serve). O segurança da área é rápido no gatilho e trata logo de espantar o incoveniente com a delicadeza típica da classe. Alguém em nossa mesa lembra ter visto crianças pedindo esmola com uma caixinha semelhante, só que com um pequeno detalhe: uma caixinha lacrada com um cadeado. Um rato, não muito grande, atravessa correndo o calçadão ao nosso lado, e, sorte dele, escapa do chinelo atirado por um dos mendigos. É, a realidade não é muito agradável. Subo até o apartamento da minha irmã e curto a ressaca moral lendo a revista de TV de O Globo. Estampadas na capa, com o título “Bonitas, famosas e polêmicas”, estão Juliana Paes e Deborah Secco, estrelas do novo folhetim das 7, “Pé na jaca”. Deborah não parece muito feliz, o que pode ter relação com o fim de seu romance com o cantor Falcão. Vou direto para a reportagem da capa. Ali Deborah está mais sorridente, ainda bem. Afinal, segundo nos conta a reportagem, ela acredita que Deus tem alguém reservado pra ela. De qualquer forma, ela faz questão de lamentar a lavação pública de sua roupa suja – sua e de Falcão. Já Juliana Paes, que foi o “ombro amigo” de Deborah, quando elas viajaram pra Nova York antes do início das gravações (“A Deborah tem esse jeito de doidinha, mas no fundo ela é muito carente”), diz não se importar com sua imagem de sexy: “Não compro brigas com rótulos. E adoro aquela frase: nada substitui o talento. Quero continuar passando meu crachá de funcionária da Globo”. Só faltou citar a fonte: Bozó. Mais do que imitar a arte, a vida, no caso dos nosso globais, se confunde com ela. Daí a dificuldade saber o que é real e o que é trama de novela.

 

**

 

No JN, a cobertura da morte de Pinochet é menor do que eu esperava. Ali Kamel prova pra quem quiser duvidar que o jornalismo comandado por ele segue as normas elementares para o bom exercício da profissão: mostrar os dois lados. Há uma senhora com uma vela na mão em cuja testa há uma faixa com o nome do general falecido; mas tem também gente que comemora a morte do ditador e promove quebra-quebra nas ruas. Pinochet, lembra o telejornal, comandou com mãos de ferro uma ditadura que durou 17 anos, matou 3 mil e fez outros milhares de desaparecidos. Mas como nem tudo são espinhos, foi ele o responsável pela reforma do Estado chileno, promovendo reformas e privatizando empresas estatais deficitárias, que tornaram a economia do país a mais dinâmica do continente. Simples assim.

 



Escrito por REVÓLVER NA MÃO DO MACACO às 11h02
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Da arte de falar mal 9.XII.2006

Do que mais importa e outros assuntos de somenos importância

Quarta-feira acordei disposto a uma alegria menor. Como as grandes aventuras já não existem mais bem como as viagens imaginárias, decidi ter um almoço... digno de reis? Não, apenas confortável. Modestamente, decidi ter um almoço um pouco mais, e reforço, um pouco mais confortável: decidi fugir dos famigerados “quilos” (quilos de aborrecimentos na fila, na comida, na hora de pagar). Ser servido honestamente por um garçom equivale, na minha humilde medida das coisas, a uma consideração nababesca. Toda vez que tenho o modesto prazer de ser servido “à la carte” tenho vertigens de paxá indiano.

 

Eis que depois de me preparar para o tal evento, já em via de comer, alguém surge para interromper meu prazer secreto. A minha antiga professora de alemão. (Nada em comum com Frauline Elza). Havia anos não nos falávamos e, confesso, tanta disposição para o contato da parte dela me surpreendeu. Havia uma sobeja voracidade: num piscar de olhos já estava bem acomodada em minha mesa disposta a falar.

 

No segundo seguinte descobri a misteriosa força que a movia: em pouco menos de meia hora falou mal de tudo mundo, em graus variáveis, dos filhos aos alunos, ex-alunos e, tive a impressão, dos futuro alunos.

 

Contrariando o que prega o senso comum, ela não mereceu sequer um pensamento de censura de minha parte. Pelo contrário, senti-me como que elogiado. Falar mal dos outros é nossa suprema condição – que monstruoso animal é o homem (concluo com uma outra passagem de Montaigne).

 

Retomo o fio da meada das considerações, agora quase já coletivas, sobre o PGQ e o “realismo” da teledramaturgia brasileira. Em outro texto Zeca chamava a atenção para a escola “naturalista” de interpretação que impera no PROJAC e acho que voltou a falar disso quando mencionou a auto-referência enfática da Rede Globo, que não se furta a se apresentar constantemente como a notícia mais importante do momento. Esta pauta auto-referente permeia toda grade da rede. Mas há um detalhe ainda mais contundente desta auto-referência: como a escola de interpretação chamada “naturalista” privilegia muito mais a continuidade entre atuação e vida do que sua ruptura, há como que um mecanismo que faz com que a trama vivida na teledramaturgia passe a ser tratada como notícia factual, porque afinal, os atores “vivem” ou “viveram” este drama. O que foi visto no “Faustão” (palavra, aliás, horrível de ser escrita) – atores fazendo a terapia de seus personagens – tem esta justificativa ideológica. O que não anula a justificativa material e óbvia: fazer uma espécie de marketing indireta do produto em questão, as “Páginas da vida”.

 

Lembro das lições de interpretação do “Actor´s Stdudio”, também uma escola “naturalista”. A partir da experiência do “The actor´s studio” é possível entender como  Marlon Brando inovou a interpretação quando reduziu a quantidade de gestos, aumentando o peso significativo de cada um deles, tornando-os raros. A “presença” passou a ser um elemento chave. No cinema isto produz um efeito de verossimilhança maior, tornando a atuação mais persuasiva emocionalmente. Este tipo de inovação criou também um “padrão” de interpretação de modo que quem insistia em fazer o que se fazia antes passava por caricatural, isto é, exagerado. Na televisão e em especial no PGQ dá-se o inverso: o “naturalismo” tem de ser caricatural, verborrágico. O porquê disto, deixo para o Zeca responder.

 

[continua...]



Escrito por REVÓLVER NA MÃO DO MACACO às 12h41
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Da arte de falar mal 9.XII.2006

[cont.] Da arte de falar mal 9.XII.2006

 

Uma nota, duas notas.

 

O O Emílio vem falar em os “idiotas da objetividade” para defender o Gaúcho. Convenhamos, não é privilégio dos corinthianos enxergar o óbvio ululante. “Gol de bicicleta só com muito boa vontade” como já disse o André. E bota boa vontade nisso. Uma pucheta pra lá de bizonha, cuja maior virtude é ter sido suficiente para fazer o gol. Futebol não é técnica, se fosse bastaria escola. O Gaúcho poderia trabalhar com Orlando Orfei, mas sem o patrocínio da Nique.  O que faz a diferença entre um certo Arantes e o Dentuço (o maior fracasso das copas) é uma fúria inexplicável, uma força humana, demasiado humana que sabe jogar futebol. O Dentuço é como o touro do desenho, em vez de entrar na arena prefere cheirar as margaridas (com o porta chifres da Nique). As opiniões do Tostão não comento. A especialidade dele deve ser oncologia.

 

Por onde andas Menino do Rio? Espero que não tenhas se perdido no baixo Gávea.

 

AOTC

 



Escrito por REVÓLVER NA MÃO DO MACACO às 12h38
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Camarão que dorme a onda leva

 

[paulo o emilio]

 

Foi anunciado em 5 de dezembro que o templo do consumo fashion Daslu está à venda [na verdade, faliu]. Além de ter que vender sua participação no grotesco edifício construído às margens do canal Pinheiros [na verdade quitar o aluguel atrasado], a empresária Eliana Tranchesi está vendendo a marca Daslu, herança familiar, negócio de bairro “das Lu”. Por não compreender que a saúde do negócio familiar estava no contrabando, na sonegação fiscal [o que, como todo crime, deve ser feito por baixo do pano] a empresária avançou o sinal ao trazer a marca para os holofotes. Não demorou um ano para que a Polícia Federal desmontasse o esquema. Tal operação foi uma facada nas pretensões dos irmãos metralha, mas o negócio já devia ir mal das pernas. Segundo consultora “corporativa” ouvida no blog do PHA, além de ter um exército de mil funcionários, a loja tem sido espaço preferencial de turistas, que chegam de toda parte para conhecer a loja, mas não necessariamente põem a mão no bolso.

 

O ocaso do negócio já estava sendo comentado. Semana passada um grupo de 50 jovens que participavam de uma festa de debutantes no local se envolveu em briga com seguranças. O templo do luxo servindo de buffet já me parecia uma coisa estranha. Não é difícil imaginar que já há uma movimentação pra ver quem pega o filé. Com a marca desgastada pela ladroagem deflagrada pela PF, dificilmente vão conseguir reerguer essa múmia. Mas há um exército de dondocas que não vai se contentar com a Oscar Freire, e qualquer coisa na linha dessa aberração há de ser recriada.

 

Mas por hora podemos nos contentar com essa derrota.

 

Obs: Pra não dizer que não falei de flores... uma semana após marcar um gol estranhíssimo, numa meia bicicleta improvável, que poderia ser desqualificada por sua estranheza pelos idiotas da objetividade, e aí é que reside a beleza do lance, Ronaldinho nos brinda com mais um gol de placa. Quem não viu o gol de falta que ele fez contra o Werder Bremen pode acessar http://www.ronaldinho10.com/sp_barcelonevideo0607buts.htm (site pirata do rapazola). Poucos têm a visão de jogo que ele tem, poucos bateriam uma falta desse jeito. Genial



Escrito por REVÓLVER NA MÃO DO MACACO às 10h36
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B O L E I !

[Zeca Ferreira]

Realidades paralelas                

 

Pra começar, historinha sobre o Padrão Globo de Qualidade em seu auge, final da década de 70:

Uma cantora e um tradicional conjunto da velha guarda do samba carioca gravavam o programa fantástico, o show da vida, sob direção de um importante figurão da emissora, já falecido. Coloca câmera aqui, muda pra lá, arruma a luz, testa o som, vem a ordem do diretor para um de seus assistentes: “arruma chapéu pra todo mundo, são muito feios”. Por “muito feios” entenda-se negros e idosos, na Globo, na década de 70.

 

O último texto do confrade Alexandre Carrasco aqui nesse revólver me leva a prolongar um pouco mais a discussão sobre a construção desse tal padrão de qualidade, um alicerce que deu coerência interna a toda a programação da emissora, um caso de inequívoco sucesso.

 

É possível que esse estatuto do bom gosto jamais tenha sido de fato escrito, mas que exista algum tipo de bom senso comum aos membros da confraria, dizendo o que é ou não apropriado naquele momento (esse senso comum até pouco tempo respondia pelo nome de dr Roberto). Por exemplo: negro, idoso e sem chpéu, hmm.., não por enquanto.

 

Recentemente houve a história de duas personagens lésbicas na novela das oito. Não tinha beijo, esfregação, nada explícito, mas era claro na histórinha que as duas eram mais que amigas. Porém, reprovado em pesquisas internas, o casal não colou. Resultado: chumbo nas sapatas, elas morreram juntas, só não lembro se foi acidente de automóvel ou na explosão do shopping. Mas aí é que pegou mal mesmo. Segundo resultado: de lá pra cá toda novela tem a sua cota de um casal gay ao menos. Qualquer dia desses rola até um beijinho.

 

Faz parte do PGQ também a auto-referência. Afinal, trabalhar lá é como pertencer a uma espécie de casta superior. Não por acaso são chamados “globais” (alguém já ouviu falar em recordistas ou sbtenses ou culturais?). Os globais só namoram e procriam com entre si (exceção feita ao Tony Ramos). Os programas de entrevista globais só entrevistam globais. Isso chegou a um nível de esquizofrenia tão grande, que chegamos a confundir a vida “real” dos globais com a de seus personagens. Assim como nas novelas, os globais casam, separam, sofrem, curtem a vida. São saudáveis, alegres, apolíneos e apolíticos, e nós acompanhamos os seus cotidianos como se fosse uma novela, através de revistas especializadas na fila de espera do dentista. Hoje tem até canal de televisão que vive de noticiar as vidas de globais fora do Projac.

 

Mas o máximo da auto-referência está num programa chamado Casseta e Planeta urgente. Saídos de jornaizinhos de faculdade, onde faziam humor baseado na crítica de costumes e do cotidiano, os cassetas, como se auto-apelidam, passaram a fazer um humor baseado exclusivamente na...globo. Tudo ali se refere à emissora, uma espécie de vídeo-show em versão comédia (só que menos engraçado). Os assuntos são: as novelas da emissora, imitações de globais, até a sátira política se faz mediada por uma figura global – normalmente a partir de algum trocadilho infame com nome de repórter da emissora, tipo Pedro Bilau, Chicória Maria e por aí vai. Acho que os cassetas ganham em peleguice até do Faustão, que tinha um programa bacaninha nas madrugadas da bandeirantes e foi pra lá elogiar os outros globais (“é, meu, quem conhece sabe, além de atriz é um caráter extraordinário, e é a mãe do Chicão e da Flavinha...”).

 

Como em toda ditadura, o monopólio esmagador exercido pela emissora é uma fábrica de construir relações esquizofrênicas. Com o PGQ plenamente consolidado, a censura só precisa ser exercida em casos limite, já que a auto-censura tem funcionado cada vez melhor – quem vê a programação hoje, por sua coerência, é capaz de jurar que aquele bom senso comum hoje prescinde do dr. Roberto.

 



Escrito por REVÓLVER NA MÃO DO MACACO às 10h50
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Pisa na fulô, não maltrata meu amô

[paulo o emilio]

Há temas que não mereceriam nossa atenção e a perda de tempo. No entanto a raiva é muito grande, e me dedicar a isso pode ajudar a aliviar.

Acordo invariavelmente de mau humor aos domingos. Durante a leitura rotineira do calhamaço sou, também invariavelmente, lembrado que é domingo e que é meio-dia. Uma bandinha toca o hino do corinthians sempre na mesma hora embaixo da minha janela. O toque me lembra que é hora de tomar banho pra ir comer a “lasanha da vovó”, que já não é mais lasanha e muito menos da vovó. Sair à uma hora de casa, com a bandinha ainda em plena atividade, e a essa altura já tocando o hino dos bambis, é uma tortura. A feira de artesanato da República, a mesma que já garantiu uns trocos ao Zetti, bomba. Uma horda de pintores amadores está em busca de seu material de trabalho, e o faz até a uma hora de domingo. Depois disso é hora de almoçar com a família, a lasanha da vovó. E a feira acaba de repente.

A introdução é só pra citar um dos diversos programas que levam a população desta estranha cidade a criar filas e enfrentar engarrafamento a todo custo. Uma vida extremamente atribulada, em turnos de 10, 12 horas, com pelo menos mais duas de deslocamento não permite muito mais do que chegar em casa, abrir uma cerveja, assistir o Maneco e as gostosas entubadas do Leão. E assim os dias acabam com uma velocidade incrível.

Chega o fim de semana. Aquele trabalhador bem remunerado – filhão em boa escola, o dog é de raça e com pelão brilhando, a casa mobiliada e bem arrumadinha, a patroa toma conta de tudo – vai se dedicar ao fim de semana, sapato-sem-meia-bermuda-branca. E pra ele há as revistas “programe-se”, em que são despejadas as quinhentas peças em cartaz, os duzentos filmes espalhados na infinidade de salas, os espetáculos da OSESP pra quem ganhou assinatura anual no dia dos pais e dezenas de shows que conseguiram espaço na revista pra divulgação. E para toda essa oferta assustadora há público, há filas. A cidade consome cultura com uma fome desesperadora. As filas do teatro Imprensa se fundem às do zé celso. (aliás, só São Paulo explica o Teatro Oficina)

E para os iniciados, os que se distinguem, há consultores de bom senso. E um deles desperta meu ódio semanalmente.

Eu imagino como é o cotidiano dessa figura, segundas feiras, mesa 1 do Café Europa, assinaturas das revistas semanais de Nova Iorque, Londres e Paris, café expresso. A criatura se dedica exclusivamente a ditar (ou reproduzir) tudo o que é bom, que merece a atenção, do teatro à literatura, da pintura ao futebol. Comentarista de todas as artes, caga-regra de tudo que deve ser consumido pelo LEITOR PADRÃO, o escroque obviamente dedica linhas semanais a alimentar a vergonha de ter um presidente operário, de ser vizinho desse monte de cucaracha e seus presidentes indígenas.

O caga-regra derruba lágrimas. A de hoje foi pro Jece Valadão, que segundo ele não era esse ator todo que os obituários dizem, e cita os filmes mais importantes dele. Provavelmente não viu nenhum.

Enfim, uma merda. Já me prometi muitas vezes nunca mais ler. Mas preciso ter assunto com Netão.

 

Obs: Não preciso dizer que pra Claude Jade não houve uma lagriminha.



Escrito por REVÓLVER NA MÃO DO MACACO às 16h35
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Da arte de falar mal 2.XII.2006

Realidade versus realismo

 

Escrevo com um indesculpável atraso, todo ele motivado por razões desimportantes. Retomo, pois, sem mais o assunto da última semana: como se dá o enquadramento da realidade na televisão brasileira, mais especificamente, na nossa “consagrada” teledramaturgia? Noto que poderíamos ampliar o problema perguntando igualmente como se dá o enquadramento da realidade nos telejornais, por exemplo, já que o ponto de partida foi o “padrão globo de qualidade”, e sabe-se que ele é uma diretiva que permeia ou deve permear toda a produção da rede. Tentarei pensar prioritariamente em um sem esquecer o outro.

 

Antes, faço uma pausa: pensando no assunto no decorrer da última semana acabei por formular a hipótese mais ou menos óbvia de que o PGQ, que se formou junto com a quartelada de meia-quatro, só foi possível graças aos laços políticos da rede construídos e cristalizados pelo golpe, já que produziu uma combinação especial (ou esquizofrênica, conforme o diagnóstico) na natureza das atividades da TV Globo: “irrealidade” do telejornalismo, “realismo” na teledramaturgia e a necessária proteção política, que quando se trata de serviços concedidos pelo estado significa imediatamente proteção econômica. Ora, descobri no “blog” do Luiz Nassif que este tese, já batida, foi rebatida por ele nos seguintes termos que resumo um pouco toscamente: o que foi decisivo na formação do PGQ foi, por assim dizer, a modernização do mercado publicitário que então passou a exigir um tipo de grade que abarcasse todas as faixas de mercado (o movimento contrário se deu com a emergência da televisão paga, o início do ocaso do PGQ). O PGQ foi resultado da estratégia vencedora da RG para abocanhar a maior fatia possível deste mercado moderno e em expansão. Nassif sustenta que havia um concorrência razoável nos anos setenta entre várias televisões e que nunca houve a favor da Globo a situação ideal de correr sozinha na pista. Como ele apresenta sua posição em abstrato, fica difícil mensurar o tamanho da força explicativa do argumento. De todo modo, há outros elementos que considero importante levar em conta para formação do PGQ: ele foi construído em um momento que havia uma simbiose entre a criação artística na televisão e o que se passava fora da televisão muito forte, isto é, em um momento em que a televisão não tinha a autonomia assustadora que tem hoje. O que pode ser resumido com a seguinte constatação: hoje a TV pode falar apenas dela e isto é suficiente para que ela se justifique. Mais: a televisão hoje tem seus especialistas, seus intelectuais, seus parâmetros de avaliação dos “fatos”, de tal modo enraizados na própria prática da televisão que apenas basta que existam para ela e nela que isto os dispensa de prestar contas a quem quer que seja. Outro exemplo: não sei se naquele momento seria possível falar de uma escola de interpretação que se formasse exclusivamente a partir da televisão, o que parece ser sintoma positivo – como hoje se pode falar nestes termos da “Malhação”, por exemplo (a Actors studio da  Globo). Em resumo: a televisão era em geral mais aberta à sociedade uma vez que não tinha adquirido a posição hegemônica que tem hoje (ou que segundo alguns, já teve em um passado recente, já que viveríamos o começo de sua decadência). E hegemônica a tal ponto que subjuga, por exemplo, o cinema: um dos problemas do cinema nacional é a interpretação televisiva dos atores – os melhores atores de cinema são os que menos fizeram televisão. Note-se que a melhor atuação na filmografia nacional é a da cadela Baleia em “Vidas Secas”.

 

Onde todas estas considerações me levam? Ainda não sei. Entretanto vou aprendendo: li na manchete de uma revista a preciosa informação: “Nanda realiza seu primeiro milagre” – na televisão o tempo em que os vivos realizavam milagres já passou.

 

AOTC



Escrito por REVÓLVER NA MÃO DO MACACO às 11h40
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