REVÓLVER NA MÃO DO MACACO


[dajonia]

"Os roubos a bancos realizados pelos guerrilheiros urbanos brasileiros machucaram os grandes capitalistas tais como Moreira Salles e outros, as empresas estrangeiras que asseguram e resseguram o capital bancário, as companhias imperialistas e os governos estatais e federais, todos eles sistematicamente expropriados desde agora."

                                                            Carlos Marighela, Mini-Manual do Guerrilheiro Urbano.

 

 

            A luta armada foi uma opção política aberta nos anos 60 e 70, principalmente inspiradas no modelo da revolução Cubana. Sua eficiência se mostrou muito débil, principalmente no Brasil: proletarizar-se, por muito tempo, vinha acompanhado de uma grande sensação de ascensão social, ou seja, era melhor uma favela miserável e imunda de Santo André e região do que o velho povoado camponês pernambucano -mais miserável e mais imundo. Não havia condições materiais e políticas para que a massa brasileira esforça-se num movimento político-militar. O próprio Lula, operário que viveu na pele o asqueroso processo de modernização da economia brasileira nos anos 60 e 70, reconhece certo valor na política dos militares. Com toda razão: Lula parou de comer ratos com terra em Garanhuns e passou a comer churrasco de contra filé com cachaça em São Bernardo. Do meu ponto de vista - um luxo ideológico que tenho -  esta conquista dista muito de meu  patamar em relação a  libertação humana.

            Nesses tempos de fusões e “estatizações”, que nada mais é que a socialização das perdas do capital financeiro, acabo por encontrar  esse panfleto de Marighela. Bibliotecas na Argentina possuem tão pouco material sobre nosso país como as nossas do deles. Depois de “Casa Grande e Senzala”, o livro que mais aparece relacionado nos acervos das bibliotecas porteñas é o “Mini-Manual do Guerrilheiro Urbano”.

            Lendo Marighela, e sem viver o espírito da época, o livro acaba parecendo mais com um delírio. A importância de ser clandestino, a necessidade de saber manejar desde espingardas de cano cortado até explosivos plásticos soam tão estranhas para nossa época como quixotescas para o tempo em que foi escrito.

            Porém, com tudo e todavia, me deparei com a frase citada acima. O que ela tem? Oras! Que estatuto tem hoje a família Moreira Salles? Donos da cultura Cinematográfica do Brasil, são admirados por esses milhares de caipiras-cosmopolitas-jardinianos que acreditam na realização de nossas necessidades por arte em termos quantitativos - quanto mais e “mais diverso“, melhor. A fila do Unibanco na Augusta é mais que uma demonstração da erudição da classe média paulistana. Significa a opção de classe, consciente, de se tornar sócia minoritária dos sócios minoritários do capital internacional. E a “arte” é o novo espaço privilegiado de reprodução dessa capa mediana (em termos políticos, econômicos e mentais) da sociedade brasileira. Basta observar que as velhas profissões hoje  -em boa medida, proletarizadas: arquitetos, engenheiros,advogados- vêm perdendo espaço na eleição profissional da “juventude dourada” por coisas como publicidade, design, “cultura em geral” e outras inúmeras profissões cortesãs.

            Ação consciente de uma classe que buscou sua degradação e a degradação de seu entorno.  Se antes a família Moreira Salles tinha essa moral, hoje em dia são cidadãos de primeira classe que lutam e investem pela “cultura” do povo brasileiro. Eu sou mais Marighela: quero mais minha parte em dinheiro. Óbvio que não serei louco (ou mesmo não tenho coragem) de pegar um ferro e meter umas azeitonas na cabeça dessa gente... mas é um documento que serve para nos lembrar que existem outros caminhos.

 



Escrito por REVÓLVER NA MÃO DO MACACO às 15h40
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Samba e preconceito

[zeca]

 

                É pressuposto da sociedade do espetáculo a dificuldade em se discutir idéias, em se opor, de forma clara, conceitos. A condenação a priori de qualquer forma de radicalismo, como já bem colocou o Renato, é o exemplo cristalino disso (embora esteja longe de me enquadrar na idéia retrógrada de radicalismo que andam plantando por aí, não nego a importância do verdadeiro pensamento radical, motor históricos das transformações reais).

Nas campanhas políticas contemporâneas esse movimento é claro, e, uma vez que as plataformas se equivalem (sem radicalismo), sobra espaço para a guerra da imagem, feita de indiretas de ordem pessoal e flagrantes de frases infelizes. Aqui no Rio de Janeiro, a vítima (da própria boca e preconceito) tem sido o candidato verde Fernando Gabeira. Celebrando a adesão de um grande número de artistas à sua campanha, resolveu alfinetar o adversário, Eduardo Paes, que na véspera recebera o apoio de gente como Nelson Sargento, Dudu Nobre, entre outros, dizendo que Paes “só tinha conseguido atrair um grupo de sambistas para uma feijoada.”

Há quem não tenha visto preconceito na frase, a começar pelo próprio Gabeira, que reiterou: "Era um grupo de sambistas e era uma feijoada. Qual o preconceito em dizer que sambistas se reuniram em torno de uma feijoada para apoiá-lo?”

O preconceito explícito escancarado, como na frase do Gabeira, ainda existe em abundância, mas é logo condenado pela tribuna do politicamente correto (nada mais justo). O Gabeira pode até ganhar a prefeitura do Rio, mas terá ainda que conviver por algum tempo com a ressonância de suas frases infelizes. Mas logo se esquece, frases infelizes não faltarão para ocupar as páginas, transformando essas suas em papel de embrulhar peixe.

Mas esse tipo explícito de preconceito me parece ainda menos importante do que aquele presente nas sombras das idéias, no alicerce do pensamento conservador brasileiro. É o preconceito que sustenta toda uma visão de mundo, que, muitas vezes passando despercebido pelo próprio autor, reafirma a separação social que a escravidão produziu e que, pra derrubar, vai ser preciso ainda muito tempo, energia e luta.

                Passando longe de questões pessoais quaisquer (não é disso que se trata!), ou de se personalizar o problema, diria que o buraco é realmente embaixo, histórico, enraizado. Voltei recentemente a questão parecida com a do tal mistério do samba levantado pelo Renato ao ler, no O Globo, uma boa e extensa matéria comemorando o centenário do Cartola. Levantava uma série de informações interessantíssimas, como uma entrevista reveladora do Tantinho, que conta da expulsão do Geraldo Pereira da quadra, por querer cantar um samba já gravado, o que era proibido. (vivesse ele nesses tempos de marola, seria o Cartola enquadrado entre os radicais?). “Mas creio que este tipo de atitude não era implicãncia, mas um cuidado”, diz Tantinho.

                Lá pelas tantas, perdido no meio da matéria, vem o parágrafo:

 

                “Cartola – Agenor de Oliveira, registrado como Angenor – é fenômeno em vários outros sentidos. Sem conhecimento formal de música, foi inspirado melodista; violonista limitado, criou no instrumento sofisticadas harmonias; longe de ser um homem culto, escreveu admiráveis letras (“Cartola é daquelas criaturas que a música habita nelas”, disse Carlos Drummond de Andrade, a propósito de ´O mundo é um moinho´”); pobre, passando a maior parte da vida entre os barracões da Mangueira e uma população barra-pesada, a dos anos de sumiço, foi exemplo de delicadeza e elegância.”

 

                Que Cartola é um fenômeno, não resta dúvida. Compositor fundamental, liderança inquestionável na construção do carnaval das escolas de samba, basta uma visita à sua obra para confirmar. Mas voltemos ao parágrafo, com atenção, para entender as razões apontadas para justificar a sua condição fenomenal.

Segundo o texto, Cartola é fenomenal em vários sentidos, como explicam as oposições:

 

Sem conhecimento formal de música x inspirado melodista

Violonista limitado x criou no violão sofisticadas harmonias

Longe de ser um homem culto x escreveu admiráveis letras

Pobre e favelado x delicado e elegante

 

O texto segue, portanto, a mesmíssima tese do mistério do samba. Cartola surge, então, como mais um exemplo de superação, fenômeno por extrair poesia da escassez.

Todas as sentenças podem (e devem) ser questionadas, mas a síntese dessa visão (de mundo) está sugerida admiravelmente nas palavras “longe de ser um homem culto”. De que cultura exatamente estamos falando?

Se fosse possível metrificar, eu arriscaria dizer que a distância entre o Cartola e um homem culto é mais ou menos a mesma que separa sua obra da do imortal poeta José Sarney.

 

Obs:

1.       o autor do texto esclarece que não tem domicílio eleitoral no Rio de Janeiro.  Não vota, portando nem em Gabeira nem em Eduardo Paes. Já tem problemas demais.

2.       o Renato mencionado é o autor do blog www.terreiro-grande.blogspot.com, onde esse texto também está publicado.

 

 



Escrito por REVÓLVER NA MÃO DO MACACO às 15h48
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Descobri que minha arma, é o que a memória guarda, dos tempos da Cometa.

[andre carrasco]

2008 é o ano em que se comemora o aniversário de 50 anos do primeiro título mundial da seleção brasileira. Em meio à tanta festa; filmes, exposições, depoimentos, uns melhores, outros piores, como não poderia deixar de ser, já que, na real, muita pouca gente tinha alguma coisa que prestasse pra falar sobre o assunto.

Inacreditavelmente, a Folha de São Paulo foi uma das exceções. Inacreditavelmente porque a Folha tem a pior cobertura de esporte da imprensa brasileira. Mas dessa vez, parece que acertou.

Há algumas semanas, acho que em uma edição dominical do periódico, seus leitores foram presenteados com um caderno especial a respeito da conquista. A qualidade de tal anexo relaciona-se diretamente à um depoimento e duas entrevistas. O depoimento era do ex jogador Tostão, que quase sempre tem algo de bom pra falar quando o assunto é o futebol, passado, presente e futuro. As entrevistas, foram realizadas com dois dos personagens principais da epopéia. Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, e João Havelange, que na ocasião, assumira a presidência da CBD, atual CBF.

No geral, o depoimento de Pelé não nos traz muitas novidades. Algumas anedotas, curiosidades, etc. Mas também traz suas lembranças, na verdade lembranças de um garoto de 17 anos que na Suécia se transformaria no rei do futebol. Ele recorda de seus medos, da dúvida em relação à sua convocação, do relacionamento com os demais atletas do plantel e do mesmo relacionamento com os atletas de outras seleções. Mas o que mais me chamou a atenção foi quando ele fala de quais eram seus objetivos como jogador de futebol, aos 17 anos de idade. Ele tinha em seu horizonte ser um jogador como seu pai, um craque do Bauru Atlético Clube. Achei isso revelador. Em 1958, um jovem craque que despontava, tinha como sonho ser um bom jogador do BAC. Talvez só por isso ele tenha conseguido ser o Pelé.

Nos dias de hoje, milhares de “craques” de 17 anos aparecem todas as semanas. E todos já sabem o que querem. Um salário pornográfico, jogar no Barcelona, Milan, ou qualquer time de merda como esses, e ganhar o “título” de melhor do mundo na tal “eleição” da Fifa. Penso nisso e chego à conclusão que que a figura do craque finalmente se acabou. Essa palavra, ou melhor, esse conceito, perdeu totalmente seu conteúdo. Talvez o principal sintoma dessa situação seja o fato de que hoje, quem elege o craque não é mais o craque, e sim seus empresários, o jabá, a imprensa. Assim é fácil, né? Hoje, a noção de craque é uma noção vazia, e mais, descartável.

Mas vamos adiante. A entrevista seguinte, de João Havelange, tratava principalmente dos bastidores da campanha, mas nem por isso era menos interessante. Ele começa contando como foi a implementação da mudança na gestão da CBD. Mudança que começou com a adoção de medidas simples, óbvias até. Contratação de médicos, dentistas, psicólogos, preparador físico e até um pedicure. Em relação ao último, ele conta, que a opinião pública tratou de achincalhar a CBD e por tabela, os jogadores, afinal, a história do pedicure não passaria de uma baita viadagem. Mas segundo o próprio Havelange, dos pés dos jogadores, seus instrumento de trabalho, foram retiradas toneladas de lixo, entre calos, unhas encravadas, frieiras e o escambau. Ele também se recorda de um jogador que se apresentou à seleção com a boca em “petição de miséria”. Era o jogador Pepe, que após a constatação, foi submetido ao tratamento necessário e foi pra Suécia novinho em folha.

Muito brasileiro tudo isso. Havelange contratando médicos e outros especialistas, e a massa, contra. Como diria Nélson Rodrigues, a turma estava a favor da cárie, da frieira, da unha encravada e contra a seleção.

Mas em um momento da entrevista o repórter pergunta de onde ele havia tirado essas idéias inovadoras, que transformariam a seleção brasileira e o futebol mundial, pois depois disso, tais equipes multidisciplinares transformariam-se em regra no trato dos plantéis, fossem seleções, fossem clubes.

Segurem-se, caros leitores.  A resposta de Havelange é reveladora.

Bom, disse o cartola (não literalmente) , “eu somente levei para a seleção brasileira uma organização que já era comum na Viação Cometa, empresa na qual comecei como advogado trabalhista, e que após dois anos, viria ser presidente.” A Cometa, desde os anos 50, já disponibilizava toda uma rede de assistência médica e psicológica (essa parece que não funcionou muito) a seus funcionários, principalmente aos motoristas.

Mas o mais impressionante é o fato de que, na verdade, esse deve ser o germe do que veio a se transformar, nos dias de hoje, a gestão do futebol mundial (sempre lembrando que João Havelange virou presidente da Fifa e lá ficou por muito tempo). Da Cometa para o mundo. É possível fazer um julgamento desse processo? Acho pouco provável. Até porque, entre as cáries do Pepe e a misteriosa geladeira do Ronaldinho Gaúcho muita água rolou, o suficiente para o processo ganhar vida própria e escapar do controle de todos, até do próprio Havelange.

Mas afinal, porque escrevi tudo isso? Primeiro, porque ao ler essas entrevistas, a gente pode compreender um pouco melhor porque o futebol de hoje é uma merda. E segundo, porque hoje acordei com uma puta dor no dente, e acometido por uma saudade daquilo que não vivi, pensei em como seria o Brasil caso a Cometa não tivesse sido substituída pelo Opportunity como referência nacional.



Escrito por REVÓLVER NA MÃO DO MACACO às 14h08
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O que está por trás do conflito colombiano? “Deixa o dente branco e faz sorrir! É COCAÍNA!!!”

[da jonia]

As FARC emergiram nos anos 90 como herdeiros do banditismo organizado sul-americano. A caída de figuras como o simpático Pablo Escobar fecharam um ciclo econômico de um dos produtos mais apreciados pelos cidadãos americanos, a cocaína. Não vou discutir legalização de drogas, validez da luta armada ou questões ideológicas acerca das FARC. O que pretendo expor aqui são suspeitas sobre a situação.

O monopólio da produção de alguns bens, por mais que seja a tendência geral a ser seguida por qualquer empresa, gera uma série de inconvenientes e como conseqüência, pressão política por uma intervenção na situação.  A Standard Oil, ao dominar a produção de combustíveis fósseis no início do século XX, detinha um poder sobre a sociedade americana que acabou  levando o governo a votar as famosas leis antitruste.

Outro exemplo do poder de empresas que detenham monopólio (ou quase) é bem mais próximo de nós. O caso Dolly versus Coca Cola. A gigante dos refrigerantes, ao ver seu concorrente ganhar espaço no mercado, usa seu poder político-econômico para pressionar os estabelecimento de venda a não comprarem mais o "sabor brasileiro". A disputa chegou ao Congresso Nacional e Dolly venceu a causa. Essa é a razão do estranho patriotismo presente naquelas horrendas peças publicitárias da empresa: "Porque brasileiro não tem medo de estrangeiro". As sessões do caso Dolly versus Coca Cola podem ser vistas no youtube.

Sobre essa briga, há um filme também chamado "Coca Cola Kid". A ficção narra a luta de um pequeno produtor de refrigerantes do interior australiano contra a  enorme multinacional.

 

A produção de cocaína atingiu picos nas décadas de 70 e 80. A filmografia é imensa, assim como a fama das festinhas discoteques e das orgias yuppies. Os cartéis colombianos surgem como verdadeiros impérios. Controlam as plantações, o refino, o comércio internacional e muitas vezes a própria venda ao consumidor americano de coca. Pablo Escobar era o cara.

A Colômbia sofre um mal endêmico político. Corrupção e violência sempre foram as formas predominantes de se fazer política: a guerra entre liberais e conservadores, assim como a “venda” do Panamá, são alguns exemplos. Nesta situação de conflitos, um grupo camponês começou a se organizar para sua auto defesa. Nasceram as FARC que somente depois da revolução cubana iria ganhar um contorno predominantemente de esquerda.

Não sei de quando data o início do uso do dinheiro da venda de cocaína pela guerrilha. Creio que como organização ilegal, deve ser a muito tempo já sua principal fonte de financiamento.

Voltemos a Pablo Escobar, Cartel de Medelin, etc...

O grande poder dos cartéis começou a incomodar muita gente. O Estado, por mais que tivesse  relações promíscuas com os traficantes, necessitava ainda ser (parecer) um Estado. Além do que, como dito acima, existe um problema de conseqüências políticas quando se detém o monopólio de um produto. Não dava mais para apenas alguns fazendeiros multimilionários e fanfarrões controlarem a produção mundial de cocaína.

A investida contra os cartéis gerou a descentralização da produção. Pequenos grupos armados, antes pertencentes aos grandes grupos empresariais da cocaína, se dividiram em pequenas unidades produtivas e passaram a controlar boa parte da produção. Descentralização da produção e competição entre pequenas unidades na produção de um só bem: o toyotismo chegava a selva amazônica.

Esse processo, além de impedir o truste da cocaína, jogava milhares de pequenos grupos uns contra outros, retirando deles a possibilidade de fixar preços, exclusividade de fornecimento, o que, de certa forma, da maior poder de barganha aos compradores e barateia a mercadoria. Porém, restava ainda um grande grupo, organizado, centralizado e com comando político unificado: as FARC.

A estratégia do governo colombiano não vem sendo a de “não negociar com terroristas”, muito menos de enfretamento direto. Através de uma política mercenária, o governo vem desmembrando as FARC através de subornos, anistias e outros mecanismos obscuros. Não interessa ao governo o fim das FARC, mas sim que se adapte as novas condições de produção da cocaína. Porém como o negócio é lucrativo e os americanos tem uma imensa queda pelo diabo ralado , um processo de concentração da produção é inevitável nos próximos tempos. E o ciclo irá se repetir. Resta saber que tipo de "estereotipo" a grande mídia vai  dar ao traficante do século XXI: estilo guerrilheiro Che Guevara ou bigodudo boa onda a lá Escobar.

 



Escrito por REVÓLVER NA MÃO DO MACACO às 15h56
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Veja as Noticias...

[dajonia]

Veja as Noticias...

 

Esse é um esboço de uma investigação...

 

Da minha memória, principalmente das coisas inúteis, emergiu um fato... A editora Abril, paradigma do mal jornalismo e vanguarda da direita brasileira, teve uma primeira fundação neste país, a Argentina.

Victor Civita, então pequeno empresário em Nova Iorque, encontrou-se com seu irmão César Civita durante as férias de 1946 na Itália. César, italiano imigrado, vivia na Argentina e era dono da Editorial Abril. Segundo consta na nota que anuncia sua morte em 2004 no jornal "La Nación", César chegou a Argentina como representante de Walt Disney e publicava a revista Pato Donald por aqui... Voltemos ao verão de 1946.

Nessa visita César comentou com seu irmão a preocupação que tinha com os rumos políticos da Argentina de então. O General Perón havia chegado a presidência, incorporado leis trabalhistas a constituição Argentina e começado a nacionalizar uma série de empresas. Por isso César sugeriu a seu irmão Victor a empreitada de levar a editora ao Brasil. E foi o que ele fez.

Não sei até que ponto essa história é conhecida ou não. Encontrei ela em um artigo de Roberto Pompeu de Toledo que narra a história de "um empresário que onde se via crise, ele via oportunidade". É um puxa-saco mesmo.

Agora, o curioso... Na Argentina existe uma revista chamada "Noticias". É uma revista semanal, de variedades e atualidades, muito parecida com uma conhecida nossa. Sua especialidade é ridicularizar os movimentos sociais, tentar desestabilizar o governo de centro esquerda, publicar dossiês falsos e espalhar o ódio aos pobres com o tema da “insegurança”. Ah, quase me esquecia... Sempre publica matérias pagas por laboratórios farmacêuticos.

Se as semelhanças parassem por ai... As seções são iguais, além de as capas sempre serem foto montagens de mal gosto e humor infantil.

Alguns exemplos?

O ex-presidente Kirchner, em uma montagem de péssima qualidade, aparece vestido como uma mãe da praça de Maio. A seguinte chamada: “O uso perigoso dos Direitos Humanos”... O casal estaria explorando as profundas investigações que iniciaram sobre a ditadura como “escudo moral”...

Outra capa comentava sobre o fato da presidenta, Cristina Kirchner, usar medicamentos psiquiátricos e isso ser o responsável por seu autoritarismo e, consequentemente, algo que impossibilitava a governabilidade. Lembra alguém que também tem problemas como substâncias psico ativas? E que, além disso, é a marca principal de seus desmandos?

Os Kirchner também criaram alvoroço na Argentina ao mexerem em negociatas realizadas nos anos 90... Obviamente, os que foram “prejudicados” por isso acusam os “compadres” do casal de serem beneficiados pelo governo “mais autoritário da história”.

Poderia passar horas descrevendo a revista... Os convido a entrar no site que hospeda ela. Qual o site?

 

www.uol.com.ar

 

Eu não acredito em teorias da conspiração. Acho que o mundo do livre mercado é tão asqueroso e que as pessoas fazem as maiores barbaridades de forma consciente em nome do progresso, do livre empreendimento e outras besteiras mais...

Volto com outras informações depois.

 



Escrito por REVÓLVER NA MÃO DO MACACO às 17h28
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Rio da Prata para Rio Tietê II:

[dajonia]

Este é um trecho do livro de Juan Jose Sebreli  "Buenos Aires: vida cotidiana e alienação". Neste livro, o autor faz uma descrição antropológica das diversas classes sociais da cidade: seus comportamentos como classe, suas associações, aspirações e modo de vida. O trecho abaixo fala sobre a classe média:

            "O individualismo característico da classe média constituiu, durante muito tempo, um obstáculo mental para a aceitação dos apartamentos, preferindo as velhas casas grandes, incômodas  e inadequadas às necessidades modernas. Foi necessário que a alta burguesia impusera a casa de pisos para que a classe média, como é habitual, saísse em seu louvor. Surge assim o apartamento pequeno burguês: frentes faustosas e fundos tristes e sombrios para uma classe que vive das aparências. A sordidez arquitetônica de seus imóveis pequenos burgueses está de acordo com a mesquinhez de suas vidas cotidianas: quartos estreitos, paredes frágeis através das quais se filtram os gritos, as conversas, o som do rádio (...) janelas com roupas penduradas, pátios internos com muralhas cinzas, janelas onde por uma hora por dia se desenha uma pequena faixa de sol onde flutuam pó acumulado, restos de erva mate e fiapos de lençóis, de travesseiros e cortinas. rincões onde se amontoam nos dias de vento, folhas mortas, pedaços de jornal, papéis sujos e amarelos.

            Nestes apartamentos vivem aqueles que ainda não cumpriram com o sonho coletivo -ao menos antes da era da inflação- da “casa própria”. O investimento em imóveis como garantia de seguridade, abandonada pelas classes altas por se antiquado e anti-econômico, seguiu constituindo até o dia de hoje a obsessão fundamental da classe média, fomentada por outro lado, pela própria burguesia que trata, deste modo, ligar às classes mais baixas a ferrenha defesa da propriedade privada (...)

            Os habitantes dessas casas iguais, com os mesmos anões no jardim, com os mesmos móveis de falso estilo, com as mesmas cozinhas resplandecentes, se parecem muito, mesmo que cada um se veja como superior ao vizinho; se ocupam de trabalhos similares, votam mais ou menos no mesmo partido e têm uma concepção idêntica, fixa e imutável do mundo.

 

Voluntarismo da classe média:

            A propriedade dos meios de produção, para a burguesia, e a condição de mercadoria que se vende como as coisas que ele mesmo produz, para o operário, são as bases condicionantes de uma visão fundamentalmente prática do mundo; quer dizer, ambas as classes têm tendência a atuar de acordo com seus próprios interesses.  A classe média, ao contrário, não possui coisas como o burguês e nem fábrica coisas como o operário. “A única coisa que fazem - diz Wright Mills - é viver fazendo coisas e melhor vivem do mecanismo social que organiza e coordena as pessoas que fazem coisas”. Esta peculiar situação a leva, diferentemente de outras classes, a distrair-se, a não preocupar-se pelo o que realmente interessa.

            Atuando como intermediário entre os produtores e os possuidores -advogados, contadores, professores, jornalistas, empregados de banco, simples funcionários de escritório- , manejando somente símbolos abstratos das coisas: palavras, cifras, esquemas, diagramas, fichas, expedientes, planilhas, estão predispostos à uma visão idealista do mundo e a uma mentalidade legalista e administrativa, a crer no valor absoluto das idéias, dos papéis escritos, das consignas, das regulamentações, das ordens, em uma palavra, de todos os produtos conscientes da vontade pessoal.

            Em conseqüência, a história não é para a classe média uma luta de forças entre grupos antagônicos que respondem a necessidades objetivas, a interesses de classe em uma determinada situação social, senão uma disputa de vontades individuais, de intenções subjetivas, em um mundo homogêneo. Uma política é boa ou é má segundo a exerçam pessoas com boas ou más intenções.

            A história se reduz, desta maneira, ao calendário, à pequena história, como as dos textos escolares  ou novelas históricas que explicam a Revolução Francesa pelo colar de Maria Antonieta. Tudo se explica por nada, por pequenas e imperceptíveis casualidades da vida íntima: o tamanho do nariz de Cleópatra, a estatura de Napoleão, o ressentimento social de Eva Perón, o membro pueril de Perón, etc.

            Não existem forças econômicas ou sociais que condicionem a ação dos indivíduos - não existe o C.A.D.E., nem a Stanford Oil e nem a Shell, nem o Departamento de Estado dos Estados Unidos nem o Pentágono-, senão simplesmente ambições pessoais, caprichos, debilidades, maus costumes; a “propina”, o “acordo”, o “peculato” são os supremos maus da “política nacional”. Daí resulta a classe média ser a presa fácil das campanhas moralistas contra a corrupção dos agentes da administração e do poder público. As oligarquias exploram essas tendências da classe média para criar um clima favorável para a caída de governos “populares” como ocorreu com Yyrigoyen, Getúlio Vargas e Perón. Resulta sintomático que no livro As Leis do Jogo, Peyrou pretenda julgar o regime peronista não falando de outra coisa que não seja “negociatas”, que são, em realidade, característicos de qualquer regime burguês, e contrapondo isso ao que ele supõe como é a boa política, ou seja, a executada por burgueses honrados.

            Negando a história como totalidade onde cada parte depende das demais e ocultando as relações sociais por de trás das particularidades individuais, o pequeno burguês se balanceia permanentemente entre atitudes contraditórias e igualmente equivocadas - o voluntarismo otimista e o voluntarismo pessimista- sem decidir se admite ou não as conseqüências destas atitudes (...)

            A “tristeza”, a “indiferença”, o “fatalismo” (...) não são afinal outra coisa que as reações sociológicas de uma determinada classe social em uma determinada circunstância histórica. De uma classe que não atua, que não toma medidas, nem quer se comprometer; que não se congrega, que senta a observar a vida como um espetáculo desde sua janela da rua, de sua varanda, semi-oculta na sombra de um salão, parada em uma esquina, sentada a mesa de um café, indiferente e um pouco entediada; de uma classe, enfim, que não quer participar da história, que crê não participar e que, portanto, participa as cegas sem saber o que faz, o que quer e a onde vai”.

 

O livro é de 1963

 



Escrito por REVÓLVER NA MÃO DO MACACO às 18h12
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O que é a jornada de trabalho?

 [da jonia]

 

Menos que um dia de vida natural. Quem determina o menos é o capitalista, que tem por objetivo valorizar seu capital, de criar mais-valia, a maior massa possível de mais trabalho. Cabe a ele, como dono de sua mercadoria força de trabalho, determinar o quanto menos que um dia satisfará seu objetivo.

 

Marx escreve no "O Capital":

“O tempo durante o qual o trabalhador trabalha é o tempo durante o qual o capitalista consome a força de trabalho que comprou. Se o trabalhador consome seu tempo disponível para si, então rouba o capitalista”

                                                                      

O discurso contrario ao renda mínima se assemelha muito ao utilizado contra a nobreza nos primeiros passos da burguesia: enquanto recebem dinheiro, não trabalham, não produzem, não valorizam o capital. Parte do tributo pago pelo capitalista, que poderia ser investido na ampliação de sua produção, ou seja, em um novo processo de valorização de seu capital, é desviada para a sustentação de uma “classe parasitária”, improdutiva, dentro do modo de produção capitalista. Aqui, diferentemente do século XVII ou XVIII, não se trata de desperdiçar o tributo pago em comilanças, bacanais e especiarias do além mar; muito menos em entesourar esse dinheiro em palácios ou objetos de luxo: é desperdício de dinheiro com a parca reprodução de pessoas, reprodução de força de trabalho que não é utilizada no processo de reprodução e valorização do capital.

Aqui, também diferentemente do século XVII e XVIII, não se trata de Voltaire ou Rousseau, mas de João Melão e Diogo Mainardi.

O que isso implica?

Que parte do capital gasto na tributação não volta ao capitalista como mais-valia, apesar de ser utilizado na reprodução da força de trabalho, única mercadoria capaz de realizar tal façanha.

A partir do momento em que está garantida a mínima reprodução, a subsistência do trabalhador, será impossível que ele aceite trabalhar e ser explorado para produzir mais-valor, lucro, caso seu salário não seja maior ao que ganha do programa de assistência social.

 

Cria-se um exército de preguiçosos ou condições mais humanas de existência? Viver de favor do governo é pior do que viver de favor do dono de terra? Um da dinheiro o outro escraviza.

Diga-se de passagem, sobre a preguiça e mesmo o alcoolismo (além de tudo, gastam essa ajuda em álcool!). Diz João Bernardo:

"O alcoolismo, enquanto modalidade da preguiça, constitui uma forma individual e passiva de insatisfação".



Escrito por REVÓLVER NA MÃO DO MACACO às 17h20
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Da arte de falar mal (I)

[AOTC]

            Il Faut Jouer La Comédie

           

            JOGO DE CENA é uma locução consagrada em língua portuguesa e de uso corrente. É possível dizer que seu uso extrapola o traço técnico que a melhor caracteriza. Deste modo, posso dizer que “isso ou aquilo é jogo de cena”, sem estar preocupado com uma estréia qualquer, sem ser diretor ou ator, sem gostar, entender ou me preocupar com o que vem a ser teatro. Posso afirma isso simplesmente com a intenção de pôr em dúvida a verdade de uma situação (principalmente), o que significa que nesse caso “representação” é o oposto do verdadeiro. Curiosamente, a verdade do teatro  é justamente essa: não ser “verdadeiro”, mas “teatral”.  Reproduzo aqui a definição do dicionário, que indica a marca técnica da expressão:

 

1conjunto de movimentos (deslocamentos em cena, gestos, esgares fisionômicos) executados por um ator ao representar um dado papel

2conjugação dos efeitos obtidos por um diretor numa peça, como a marcação do elenco, a composição cromática dos figurinos, os cenários, a iluminação etc.

 

                        Neste caso, “jogo de cena” também pode ser entendido como as marcas estudadas e construídas para produzir o efeito propriamente teatral. Aparentemente, ninguém vai ao teatro para ver “a” realidade, o que não significa que o teatro não diga respeito à realidade (como, de resto, tudo), mas, pensando em uma situação trivial, representar uma prostituta não se reduz a contratar uma moça na Major Sertório – a moça em questão exerce seu ofício lá, na Major Sertório, não no Teatro Arena, logo, ela obedece outros imperativos, outro jogo de cena, e a transposição de um ao outro é muito menos óbvia do que sonha nossa vã dramaturgia.

                         Chego, enfim, ao início do meu assunto: JOGO DE CENA, o problema, a situação, os limites, tudo está no novo filme de Eduardo Coutinho. Digo filme, e completo: não seria documentário? A melhor resposta parece ser a negativa. Eduardo Coutinho não faz documentário, pelo menos o documentário que se esperaria. Eduardo Coutinho faz um cinema de ensaio para pensar o documentário, o que significa que de algum modo ele já está fora do documentário, que aqui é índice de uma problema maior que ele parece perseguir desde “Cabra Marcado para Morrer”: lá, com todo peso do cinema engajado, a tentativa de filmar a inédita organização dos camponeses sob as Ligas Camponesas desdobra-se na pergunta pelo o que está por detrás do cinema. Coutinho passa das personagens (“reais” ou “imaginárias”) às pessoas por detrás das personagens.  Em JOGO DE CENA, coroando um percurso estético e crítico, faz como que o caminho de volta: pergunta como as pessoas transmutam-se em personagens. Da pergunta pela realidade por detrás de uma filme interrompido abruptamente pela própria realidade (o golpe de 64) à pergunta sobre como é possível representar a realidade, se há no fundo da película (mantenho o registro anacrônico) algo mais do que sais de prata, Coutinho constituiu um itinerário e persegue a mesma pergunta-problema, que se renova a cada tentativa de filmá-la. A longevidade de seu projeto, sua permanência a despeito das modas, das crises e das mudanças de moeda, tudo isto pode dar uma falsa impressão sobre a força do documentário brasileiro ou de que há um documentário brasileiro: plano fechado, depoimento, “close”, corta, plano aberto, situação. Tudo muito bem explicado. Não parece ser esse o caso.

                        Assim como o sertanejo pirrônico de “O fim e o princípio” que não aceitava perguntas que não pudesse responder com outras perguntas, o que se chama documentário, em Coutinho, é muito mais uma pergunta pelo documentário do que uma definição do documentário. O que fica sugerido é que o compromisso de Coutinho não é com uma forma, mas com uma forma de pergunta.

                        A permanência desse tema, sua transformação em legítima inquietação estética, parece-me muito mais idiossincrática que coletiva: Coutinho não deve ser entendido como patrono do documentário brasileiro, mas o problema por excelência do documentário brasileiro: como fazer um documentário brasileiro ignorando o não-documentário de Coutinho, that is the question. Daí que nele o improviso tenha algo de método: ele não aceita roteirizar sua matéria, e poderíamos dizer deste homem que faz filmes sui generis, que ele é que foi roteirizado pela matéria que filma, sua obra é essencialmente resultado de uma ordem de matérias.

                        O que haveria mais distante disso que o documentário de resultado, que não se furta em tornar ornamental a matéria, geralmente “exótica”, que pretende capturar, formatar, “roteirizar”, que estetiza para a crítica especializada a multidão das possíveis curiosidades para o nosso público do cinema: o louco, o pobre, o migrante, o analfabeto, o deficiente, (e em um país superficialmente anti-racista e profundamente racista) o negro: todos merecem ser vistos. A pergunta é, como, sob que condições?

                        Truffaut, que era não apenas irretocável advogado do cinema de ficção como não perdia a oportunidade de detratar o “cinema documentário”, para ele simulacro de cinema, falso cinema, via no documentário a tentativa de domesticar aquilo que é o próprio do cinema, o fato de ser instrumento de invenção. Documentário para ele era esvaziar a ficção, esvaziar o possível em nome da realidade absoluta, definitiva, captada pelo fiador da verdade representado pelo documentarista: quem duvidaria do simpático, suado e bonachão proprietário de bar, segundo Trauffaut, a personagem ideal do documentário? E o problema de Truffaut era justamente esse: como é possível um cinema de certezas muito certas e verdadeiras?

Escrito por REVÓLVER NA MÃO DO MACACO às 18h31
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Da arte de falar mal (II)

(continuação...)

 

                        Conforme sua clivagem, o cinema abdicaria da sua mais estrita natureza: em vez de produzir imagens, ter-se-ia a impressão de “descrever a realidade”. Seria o documentário, enfim, o supremo fiador da realidade, da verdade verdadeira que nos libertará, o conseqüente passo do cinema engajado dos anos sessenta, comprometido com a realidade, para um cinema engolido pela realidade?

                        A resposta menos óbvia a estas ambivalências vem dos feitos do próprio documentarista: é ele que põe em dúvida o repertório de caras e bocas que captura não mais com a intenção de cercar-se das garantias da realidade, mas justamente de as pôr em dúvida. Eis o JOGO DE CENA.

Nesse filme inclassificável tudo se passe em um palco de teatro que tem ao fundo uma platéia vazia, pelo qual certo número de atrizes (famosas ou não) e pessoas comuns contam uma história pessoal diretamente a ele (de novo, de costas para o público do teatro, de frente para o público do cinema). E o que se vê? Para todos os casos, a verdade é jogo de cena, não menos verdadeira, não menos representada, isto é, as marcas de “realidade” captada pelo documentário são tão convencionais quanto as da ficção, e a verdade pode estar tanto em uma quanto em outra.

                        A conclusão óbvia a se tirar seria a de que tudo é relativo, de que diante de um outro qualquer, diante do espelho do banheiro, não há senão representação – mesmo para uma platéia ausente vivemos a constante vertigem da representação, de sermos personagens de nós mesmos.

                        Esta não parece ser, entretanto, a melhor nem a única conclusão. O jogo de cena, em Coutinho, é tanto instrumento estético quanto político: daí que filmando quem ele filma, seu caráter popular e inquietante. Ao aceitar esse JOGO DE CENA, Coutinho aceita que esse outro do documentário não se resuma a uma teoria, a uma definição estrita, nem se sujeite a violência de uma forma que lhe é estranha. Mas aceitar ir ao encontro do outro, aceitar ouvi-lo sem as garantias de uma firma reconhecida requer certa arte e exige certos riscos.

                        Em JOGO DE CENA há verdade, mas não aquela que se esperaria de um documentário qualquer, a verdade verdadeira do dono de bar.  Há sim uma verdade superior e vaga, improvisada, um tanto selvagem: a verdade do outro. Dir-se-ia, em outros tempos, talvez mesmo a verdade de um compromisso: reconhecer que esse outro ideal do documentário, algum mordomo interessante, que diariamente invade nossas casas como um serviçal eficiente, mesmo idealizado pelas molduras do documentário, pode possuir astúcia suficiente para não se entregar inteiro e, enquanto resiste, sobrevive. O que deve parecer trivial – reconhecer o outro – tem nesse filme uma generosidade específica, e levando em conta a filmografia particular de Coutinho, diríamos, uma generosidade de classe: jogo de cena em Coutinho é uma forma estética de recusar a violência nua e crua de classe,  tão brasileira, tão nossa. Eis seu JOGO DE CENA.

                        Esse outro ou essa imagem do outro que Coutinho persegue, tão estranhos ao respeitável público, revela que o melhor para ser filmado, a imagem que deveria interessar, está longe dos problemas que rodeiam as salas de exibição, que está escondido em algum lugar vasto e irremediavelmente perdido. Talvez a melhor imagem de nós mesmo seja ainda aquela que não se revela, aquela que o jogo de cena esconde, mas deixa que imaginemos.

   Concluo com Macbeth:

   Seyton : The queen, my lord, is dead

   Macbeth :

   She should have died herafter

   There would habe been a time for such a word...

   Tomorrow, and tomorrow, and tomorrow

   Creeps in the petty pace from day to day

   To the last syllable or recorded time

   And all our yesterdays have lighte fools

   The way to dusty death. Out, out, breif candle!

   Life's but a walking shadow; a poor player,

   That struts and frets his hour upon the stage,

   And then is heard no more: it is a tale

   Told by an idiot, full of sound and fury,

   Signifying nothing         

(em tradução livre e macarrônica)

A rainha está morta, Alteza

 

Ela deveria morrer um pouco depois

Haveria tido tempo para aquela palavra

Amanhã, e amanhã, e amanhã

Marca sua enviesada senda dia a dia

até a última sílaba ou porção de tempo registrado

E todos nossos ontens têm luminosas tolices

(Até) o caminho da morte empoeirada.  Fora, fora, efêmera vela!

A vida não é senão sombras penadas; um pobre ator

Que orgulhoso e desajeitado falha no momento de sua fala

E nada mais é ouvido: eis a  fábula

contada por um idiota, pleno de som e fúria,

significando nada

 



Escrito por REVÓLVER NA MÃO DO MACACO às 18h26
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Rumo ao octa na Bialândia!

[taqueda]

 

Jamais fui à Islândia. Quero-a aqui como exemplo porque sempre ouvi falar dela como aquele país exótico, gélido e sem árvores, onde sobra tanta massa cinzenta e tão pouco de insumo natural à aplicação de seu potencial que nada poderia sair de lá sem a excêntrica sofisticação de uma Björk ou a complexidade de um tal Halldór Laxness.

Entretanto, tenho minhas razões para acreditar que se hoje eu fosse à Islândia, com minhas parcas habilidades futebolísticas, poderia angariar um lugar em um bom time amador com certa facilidade. Bastaria, no teste, dar asas à volúpia de uma tímida embaixadinha. Sim, senhores, sei disso pois, pelo que me diz sempre a Folha e a Rede Globo, aquele ainda é um dos poucos países onde ainda impera o velho folclore da seleção de futebol nacional formada por bombeiros, estivadores e ortodontistas.

Mas isso seria covarde. Ser considerado um Fenômeno em terra de “cegos” não seria para mim ou para qualquer ser que se preze um objeto de vanglória, afinal, nada teria sido obtido senão por um simples truque de mudança de contexto. Coisa que farei agora.

Entra ano, sai ano, e, apesar de toda a hipocrisia do discurso, aquele blá blá blá eterno de “não disporei jamais de um minuto sequer de meu tempo ao desfrute desse mar de vulgaridade, e tal”, lá vou eu bisolhar a já anacrônica fórmula do BBB, em sua oitava edição. Lá estão os mesmos quatorze fantasmas, agora travestidos de corpos cuja diferença para como os anteriores só se nota por alguma novidade nas caras cada vez mais angulosas ou nos apetrechos cada vez mais espetaculosos.

Uma coisa, entretanto, se mantém sempre impávida. É a figura de Pedro Bial.

Uma vez eu ouvi João Gordo comentar, mui sabiamente, ou talvez já em paródia a algum sábio a ele anterior, que a pior vergonha que podemos passar é aquela que passamos ao ver a vergonha do outro. É uma catarse às avessas, pois no lugar de purificarmo-nos, quase apodrecemos. Ele se referia ao inexplicável constrangimento que tomou conta de sua mente ao ver, pela televisão, Otávio Mesquita perguntar ao ex-presidente Carlos Menem o que ele achava de nosso Brasil-brasileiro.

Quando eu vejo a tão proclamada sub-literatura de Bial chover sobre os indefesos brothers, cuja massa cinzenta, via de regra, é claro, não consegue encher sequer uma cabaça, sinto vergonha por ele. Não sei explicar o por quê, mas sinto toda a vergonha que ele deveria sentir por supor de achar que aquelas citações etéreas de poetas e músicos, teriam o mesmo alcance que obtêm quando aplicadas ao irremediável contexto de uma casa decorada com toneladas de  merchandising da construção civil e da pirotecnia eletrodoméstica, ou mesmo sobre uma dúzia de indivíduos que, no meu entender, ou viveram tão pouco que nada sabem do que viverão, ou viveram tanto em tão pouco tempo que, justamente por isso, já perderam sua sanidade.

Eu me constranjo por Bial e quase chego a sentir o prazer do sadismo em meio a essas situações. Mas tudo perde a graça quando deduzo o inevitável: Bial não se constrange como eu faço por ele. No lugar disso, ele reina. Chama então, sorriso maroto, a velha “espiadinha” e, não sei se por ordem do auto-falante local, obedecida por quatorze fiéis atores, ou se por espontâneo vislumbre, todos se põem a comentar, principalmente as gostosas, como não poderia deixar de ser: “nossa, como Bial é surpreendente...”

 Bial não pode ser outra coisa: Fenômeno num mundo constantemente renovado com novas quatorze Alices.  E é justamente por isso que eu arrisco meu palpite: O BBB só tem uma razão para se perpetuar. Bial precisa de um lugar para suas embaixadinhas. Um mundo, ou pelo menos um país, para chamar de seu.



Escrito por REVÓLVER NA MÃO DO MACACO às 18h19
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Obama Hussein e o Castelo Rá tim Bum

[o emilio]

Engraçado como nossas percepções da vida política “cotidiana” no estrangeiro têm diferentes alcances. Quando o italiano Prodi, figura apagada no “cenário internacional”, não recebe apoio do Senado e renuncia, uma crise se instala na Itália. A solução está por se apresentar, mas certamente não será nada muito diferente do que nos acostumamos a ver nos últimos anos. E certamente será algo muito diverso do que estamos acostumados no Brasil. E normal. Normal não só na Itália, mas em qualquer país com um sistema político (não só eleitoral) diferente do nosso.

Parece natural pra nós que em países desenvolvidos as coisas se apresentem diferentes, e diferentes as aceitamos. Assim assim. Na Itália, o cara renuncia porque não tem maioria, instaura-se a crise, convoca-se eleição, a qualquer hora, e outro assume. Poderíamos enumerar diversas outras situações, em que o estranhamento é semelhante. A maior democracia do Mundo resolve quem será seu governante (nosso portanto) em eleições indiretas. Sim indiretas. E nosotros vamos nos acostumando a pronunciar ‘caucus’, sem entender bulhufas de como funciona a coisa.

O engraçado é que quando se trata de qualquer coisa próxima, sudamérica, terceirão, junto a nós, não se coloca essa distância. A análise de qualquer evento político, na Venezuela, Bolívia, Argentina, ou qualquer outro vizinho, se dá sobre os parâmetros que temos. Não se dá a distância óbvia. E dá-lhe arnaldo jabor dizendo como as coisas são no congresso boliviano.

 ***

 Começa bem teu dia quando a capa do caderno cultural traz um texto inteligente de jovem jornalista equipano desenvolvendo uma tese sobre os neo-baixinhos. Focando sua prosa nas músicas feitas para a criançada do Colégio Equipe, o tucano letrado vislumbra um horizonte azul para as peocupadas mães equipanas, que com o advento da tv a cabo passa a ter infinitas possibilidades de criar os pimpolhos nesse maravilhoso caldo cultural da aldeia global. Se as crianças de ontem cresceram ao som de xuxa e mara maravilha, hoje podemos nos deliciar com os incríveis discos educativos da família Tatit, e de todos os ex-integrantes da fantástica banda Rumo.

Canções que ensinam aos nossos pimpolhos as virtudes de escovar os dentes e a não cutucar as orelhinhas com cotonete, usando artifícios de animaizinhos inteligentes que falam a língua universal infantil.

Não há possibilidade de nostalgia para um macaco cansado que cresceu ouvindo o Jô cantando Planeta Doce. Mas me vem à cabeça uma exposição de Joaquim Torres Garcia que vi na província rebelde.O pintor, que dificilmente foi leitor de Paulo Freire, viveu às custas de uns brinquedinhos de madeira que eram montados das mais variadas formas. Numa explicação sobre esses transformables, o artista atacava a forma como se dava a educação ‘alternativa’, tratando crianças como seres débeis a quem se deve pegar pela mão e mostrar figurativamente um mundo colorido. A defesa de seu ganha pão é uma ode à inteligência da criança, levada nos tais brinquedinhos a deformar as figuras dadas, descostruindo a imagem do que se pretende entuchar-lhe.

Enfim, cada um com seu André Abjumra.



Escrito por REVÓLVER NA MÃO DO MACACO às 16h18
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Telegrafo número 1: Rio da Prata para Rio Tietê.

[dajonia]

 

Hola macaquitos de Brasil!

Aqui quem fala é el mono enviado especialmente para as terras do Prata. O calor tá pior do que o Rio de Janeiro, mas tudo bem...

Hoje em dia viajar para outro país já não tem a mesma graça. Os carros, as marcas, as comidas, as músicas, o comportamento, tudo é muito semelhante. É o que aqueles entusiastas do neoliberalismo chamam de "Aldeia Global", eu chamo de fim do mundo, uma merda mesmo.

Mesmo assim, são necessárias algumas adaptações, portanto aqui vai um causo curto.

Além de todo o listado acima, a Argentina tem problema de distribuição de energia (que como o Brasil é resultado do crescimento econômico e não do simples sucateamento do capital fixo) e, sim!, caos aéreo!

Atrasos, cancelamentos, e tudo o mais. A infra-estrutura é antiquada e não suportou o crescimento do setor. Governo e empresários, da mesma forma que no Brasil, visando a maximilização dos lucros, não titubearam em usar toda a estrutura até seu colapso. O resultado, já conhecemos: atrasos, confusão e a classe média, a ala vanguardista da barbárie de todas as sociedades atuais, dando aquelas demonstrações de má educação clássica. Agora, a diferença. Os funcionários da Aero Lineas Argentinas agüentaram, pacientemente, insultos e todas as sortes de má educação. A merda foi, quando um dos passageiros prejudicados pelos atrasos, partiu para a agressão física e tentou atacar um funcionário, um destes que trabalham no balcão. A reação? Braços cruzados e greve na Aero Lineas Argentinas até que ajam melhores condições de trabalho.

Tudo bem, é velho (e questionável) aquele senso comum da maior politização da população argentina, porém é engraçado pensarmos na atuação que os partidos de esquerda, classistas, representante dos trabalhadores, tiveram em relação à crise aérea brasileira. Não se ouviu ninguém levantar a voz em defesa destes trabalhadores. O que se viu, foi apenas mais uma ala do circo asqueroso que se montou ao redor das duas maiores tragédias aéreas do Brasil. (vale lembrar a participação de Luciana Genro na cpi do caos aéreo lendo a desnecessária caixa preta do acidente da TAM). Os pretensos defensores dos trabalhadores se colocaram a todo momento ao lado dos consumidores e contra o governo: nunca se posicionaram claramente contrários as empresas ou a favor dos trabalhadores dessas mesmas. Quando o direito do consumidor se torna bandeira da dita “esquerda de verdade”, esqueçam...



Escrito por REVÓLVER NA MÃO DO MACACO às 20h08
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A fome do bispo

[paulo, o emilio]

Um pouco sob o efeito de texto encaminhado pelo nosso menino do rio, e meio sem tentar entender o que havia motivado essa segunda greve de fome do Bispo, me arrisco aqui a tecer alguns comentários simiescos sobre o tema.

O tal texto, de autoria de Bernardo Kucinski, ex-ombudsman do Palácio do Planalto (a coisa mais aproximada do que chamaram de Ministro do Vai Dar Merda) e atual colaborador da Carta Maior, tratava do viés político na atitude do Bispo (além de bater no MST, na Pastoral da Terra e outros imbatíveis). Kucinski  chega ao extremo de argumentar que a antipatia da igreja ao governo seria uma reação ao sucesso do bolsa-família, e da mesma forma uma reação antecipada aos benefícios que a água no sertão traria àquelas populações. Não vou tão longe, no entanto estabelece-se aqui um ponto central na análise política do ato (mais uma vez o político, termo tão démodé). Por mais que a imagem da Letícia Sabatella chorosa na Folha, ainda telefonando para o Zé Celso pra explicar a nobreza da causa, nos force a acreditar que se trata de um mártir do sertão, um guerreiro da fé, um progressista latinoamericano esquecido pelo Vaticano e propagando a justiça social nos cafundós do Judas, é notável a posição do pároco na hierarquia clerical. É um Bispo, sucessor dos apóstolos, nomeado pelo Papa.

Ou seja, é uma posição da Igreja, e contra o Estado. Tudo bem que a atitude extrema do cara pode não ser compartilhada por todos os seus colegas – e consta que foi exatamente o racha na igreja que deu cabo no jejum – mas daí a considerá-lo um mártir da causa das populações ribeirinhas vai um longo caminho. Há dezenas de razões de fundo para que a igreja se posicione contra esse governo, não vou me meter a enumerá-las aqui. E há motivação suficiente, no entender deste modesto macaco, para crer que a ação do Bispo se insere nesse contexto.

Quanto à transposição propriamente dita, nada sabemos. Nenhum de nós. Sei apenas que o projeto é tocado pelo atual ministro Gedel, o que faz arrepiar cada pelo do corpo. O texto da Carta Maior traz longa argumentação, e cita fontes interessantes para a pesquisa sobre o tema. Mas mesmo isso parece não interessar nem um pouco nossa “pinião pública”, os articulistas e editorialistas de plantão, que têm assumido o importante papel de consciente coletivo. Interessa fazer marola.

Por fim, o momento criança-feliz, que envolveu até (pasmem) o Osmar Prado, pulou rapidamente para as seções obscuras dos portais de notícias. Finda a greve de fome, é chegada a hora de arrumar outro tema. Talvez deixem passar as festas, pois a galera tá mais interessada em torrar o décimo terceiro e mandar brasa no pernil. Aliás, até terça-feira nosso bispo já deve ter se recuperado da refrega, e poderá, ele também, cair de boca num peru.

***

É preciso dizer que durante esta semana consegui contar até 10 e ignorar o tema Elisa Bracher vs Dona Marisa. Uma vitória pessoal que preciso compartilhar com os confrades. Ia me embananar todo ao julgar o talento artístico dessa consagrada herdeira do grupo BBA ou ao tentar comparar a falta de sensibilidade de nossa primeira dama com a nobreza do casal Cardoso. Enfim, assunto pra Danuza.



Escrito por REVÓLVER NA MÃO DO MACACO às 20h19
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B O L E I !

 

Ninguém se deu conta, mas o nosso macaquinho completou, em novembro, um ano de existência. Parabéns pra ele! Para o próximo ano, a principal novidade é o nosso Dajonia mandando seus torpedos direto de Buenos Aires - será o nosso macaquito infiltrado entre os hermanos.

 

Macaco assinante

 

Assunto central desde as nossas primeiras edições, a tão necessária (e sempre distante) democratização nos meios de comunicação volta à pauta em assunto que ainda vai dar o que falar. Já que as últimas tentativas de regulação na tv aberta foram por água abaixo, dinamitadas por uma campanha feroz lançada e mantida pelos principais interessados no seu fracasso, temos agora no centro do ringue a tv por assinatura. Será votado em breve o projeto de lei 29/2007, uma tentativa, bastante modesta por sinal, de garantir legalmente cotas de programação nacional independente nos canais a cabo.

Trata-se, obviamente, de um paliativo. TV por assinatura, no Brasil, é privilégio de uma pequena minoria. Mas poderia, e daí o terror, gerar algum tipo de precedente para se tentar levar aos canais abertos algum tipo de regulação. (Ainda que pouca gente saiba o que isso significa, todos esses canais funcionam através de concessões públicas, ou seja, deveriam mesmo submeter-se a algum tipo de regulação que visasse o interesse público.)

Sobre o projeto de lei, indico o ótimo texto de Leonardo Mecchi, publicado por esses dias na revista eletrônica Cinética (http://www.revistacinetica.com.br/ancinavdenovo.htm), onde ficamos sabendo, por exemplo, que a exigência mínima de programação nacional independente proposta(ou cota) é de 10%, o que, pelas suas contas, significaria dois filmes brasileiros por semana em um canal como o Telecine – se alguém tiver o link do projeto de lei também será bem vindo.

Em oposição ao projeto, o site de uma certa Associação Brasileira de TV por Assinatura (ABTA) traz a público um texto de arrepiar os cabelos. Seguem trechos, embora eu recomende a leitura na íntegra dessa preciosidade:

 

“A imposição das cotas de conteúdo nacional ou vai encarecer – e muito - o serviço aos assinantes ou vai forçar os programadores e operadores a reduzirem os canais estrangeiros, o que pode inviabilizar toda a indústria de TV por assinatura no País” (adoro esses argumentos ou/ou, cobrindo cem por cento das possibilidades existentes)

 

ou

 

“Ao impor uma cota artificial e arbitrária na exibição da TV por assinatura, automaticamente a lei restringiria as opções de canais em nosso País. Isto praticamente isola o Brasil do resto do mundo, pois limita a livre circulação de bens culturais com base em seu país de origem. Este projeto é um passo ao autoritarismo, já que permite o controle dos meios de comunicação, e um ataque à liberdade garantida como direito fundamental no Art.5° da nossa Constituição Federal.”

 

(CONTINUA)



Escrito por REVÓLVER NA MÃO DO MACACO às 22h36
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B O L E I (II)

(CONTINUAÇÃO)

 

Ou ainda

 

“De forma indireta, ao determinar cotas nas TVs por assinatura, a Câmara sinaliza a disposição de interferir na programação exibida no País. Hoje, a restrição se dá por conta do país de origem. E amanhã? Alinhamento político?”

 

E isso é só uma pequena amostra. Há também um site específico de campanha (www.liberdadenatv.com.br) e um inacreditável anúncio televisivo que culmina na frase “eu pago, eu escolho o que quero assistir na minha tv por assinatura”.  (provavelmente inspirado naquela clássica cena do aluno peitando o professor de escola privada)

(para conferir: http://br.youtube.com/watch?v=wyJKJfUa-Rc)

Em resumo, a aprovação do projeto (ao meu ver bastante moderado em suas proposições) poderia significar uma explosão nos preços das assinaturas, quando não o fim do serviço de tv à cabo no país, o isolamento do país, autoritarismo, restrições à liberdade, quem sabe até o início do socialismo bolivariano no Brasil.

E assim como a Ancinav e o conselho de jornalismo ficaram maculados como infelizes arroubos autoritários, o artigo 29/2007 periga ir pelo mesmo caminho. Não é de se duvidar que, como da outra vez, as estratégias e artimanhas do lado de lá superem em muito qualquer tentativa de se mexer nessa cumbuca.

Não é difícil entender porque: enquanto eles somam à campanha oficial o apoio maciço de jornais, tvs e seus mais fiéis formadores de opinião, transformando um interesse privado em clamor nacional, botamos o rabo entre as pernas, temendo o mais terrível estigma dos dias que correm: o autoritarismo. Enquanto eles informam na leitura matutina do jornal, no intervalo da novela, nós ficamos discutindo em fóruns laterais como o nosso, preocupados apenas em ter razão.

 

Macaco natalino

 

Algumas sugestões de blogs interessantes visitados nas últimas semanas:

 

Eu descobri que a alegria

de quem está apaixonado

é como a falsa euforia

de um gol anulado”

 

O autor dessa e inúmeras outras pérolas, após curto período no moribundo Jornal do Brasil, estreou em grande estilo na internet. É isso mesmo, o blog do Aldir Blanc. Corram pra lá!!!

http://www.palmeiradomangue.blogspot.com/

 

“Sou bom rapaz

no modo de proceder”

E esse é pra quem gosta de samba:

Nosso colaborador esporádico Renato Pé Sujo lançou recentemente o mais sensacional espaço internético dedicado ao gênero. Disponibilizando gravações e textos raros, passa longe dos habituais e insuportáveis clichês de sempre.

http://terreiro-grande.blogspot.com/

Salve Terreiro Grande!

 



Escrito por REVÓLVER NA MÃO DO MACACO às 22h35
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